A carta...

Luiz Maia

Hoje acordei pensando em ti. Na falta daquele abraço tento te escrever. Faz tempo que não te vejo e a saudade começa a incomodar. Nesse período muitas coisas deixamos de partilhar, nos esquecemos de contemplar a  vida e de dizer ao outro o quanto fomos insensatos. Como demorei para falar essas coisas, nem sei porque deixei meu coração se abrir para dizer que só penso em ti. Há pouco falei com uma amiga dizendo que ela se parecia contigo. Menti afirmando que eu não queria mais te namorar, que os olhos dela pareciam com os teus. Hoje me apego às lembranças, na falta dos beijos, das mãos que um dia ajeitavam o meu lençol na frieza da noite. Não sei se estás casada, se namoras ou se ainda pensas em mim. Sei apenas que fomos felizes enquanto juntos estávamos.
 
Lembro-me que ao conversar sobre nossa relação ríamos muito, envolvidos por tamanha alegria. Essa união cheirava à felicidade. Eu não podia me conter diante do jeito de me dizer “te amo”. Tu me seduzistes, tomaste-me pelas mãos a guiar os nossos passos. Eu passava minutos a te dirigir palavras de amor, enquanto me dizias como foi bom ter-me conhecido. Eu sei que nos amamos, que nos deliciamos com esse jeito lúdico de caminhar a dois. Paradoxalmente não suportamos tanta paixão assim, e ficávamos a nos questionar o porquê disso acontecer. 
 
Ao teu lado vivi cercado de carinho, tenho  ótimas lembranças do tempo em que estivemos juntos. Mas és demais sensata para viver ao lado de um homem que transpira só emoção. Eu sou assim, sou movido à emoção. A minha paixão por ti não pode ser compreendida à luz da razão. Conversamos diversas vezes sobre isso e nunca chegamos a nenhuma conclusão. Boas foram as lições que podemos extrair desse convívio. Foram as conversas que varavam a noite que nos deram a certeza de como somos inseguros. Éramos dois adultos em busca de resolver a criança que havia em nós. 
 
Hoje nada de original percebo na vida a não ser o clarão do sol a cada amanhecer. Nego-me a acreditar que tudo acabou e que somos apenas parte de um passado. Refleti muitas vezes sozinho no silêncio de meu quarto imaginando que poderias estar triste também. Assustei-me com a dimensão desse amor. Foi difícil perceber que o amor e o ódio vivem em cada um de nós, podendo vir a se manifestar e a nos fazer mal um dia. Precisávamos estar atentos para não ferir o outro, mas inconscientemente passamos a estabelecer um clima de competição entre nós. Quantas vezes fomos incapazes de ser tolerantes? Quantas vezes esquecemos de ser carinhosos com o outro quando mais precisávamos? Confesso que sinto tua falta, e sei o quanto é triste compreender que só passamos a conversar mais seriamente na iminência dessa separação.

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