Ao cair da tarde

Luiz Maia

Um dos males que aflige o homem moderno reside na importância que ele dá ao consumismo. Um estilo de vida em que as pessoas passam a ser escravas dos bens de consumo não pode fazer bem a ninguém. Ao invés de reduzir suas demandas por artigos essenciais, o homem adquire supérfluos para satisfazer seus desejos. Na busca de novidades ele continua insatisfeito porque as prioridades básicas sequer foram por ele consideradas. Não seria a troca de um objeto ultrapassado por um novo que lhe proporcionaria prazer. A despeito de tudo a pessoa deveria estabelecer metas, selecionar suas necessidades e procurar um modo novo de tocar a vida. Talvez a mídia, que tem o poder de impor regras sem que muitos de nós busquemos refletir, colabore para vender um mundo irreal de ilusões. Sem pensar, o homem começa a agir indevidamente, comprometendo sua receita sem perceber que as financeiras não alisam ninguém. Longe dos questionamentos dos homens, procuro me recolher. Aguardo calmamente a noite chegar para refletir sobre algumas insatisfações que povoam o inconsciente coletivo.

Mas de repente começa a chover, a tarde escurece e eu esqueço tudo. A preguiça chega em companhia da música suave que vem do quarto. Dá uma vontade danada de ficar deitado espiando a chuva escorrer pelo vidro da janela. As tardes de inverno são acolhedoras, mas o tempo nublado às vezes nos deprime. Instantes assim nos reconciliam com a fugacidade da vida e eu me rendo à magia da tarde cinzenta, distante dos problemas da modernidade em que pouco ou quase nada podemos interferir. Meu espírito carrega consigo um corpo por vezes contrariado, mas que logo se aquieta diante da beleza do cair da tarde. Enquanto a noite não chega eu sigo caminhando a despeito de tudo. Sei que sobrevivo entre a paz e a inquietação porque aprendi com o silêncio a caminhar por estradas difíceis, mesmo tendo de me distanciar daqueles que, mais rápidos, conseguem chegar à minha frente.

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