A simplicidade da vida



Luiz Maia

Acordei e vi que o dia estava nublado. Cheguei a pensar que eu poderia adiar minhas tarefas para a manhã seguinte. Vou ao banho, visto um bermudão e tomo um saboroso café. Como um iogurte com mamão, meia banana comprida com queijo de coalho assado, uma porção de granola polvilhada com canela, depois saí. É dia de ir ao petshop. Tareco precisa tomar banho e a segunda dose do vermífugo. Em seguida vou correndo ao Pescadeiro comprar o peixe do mês. Alguns quilos de filé de pescada amarela e outros mais de filé de salmão. Lá conheci um médico especialista em cirurgia plástica, lipoaspiração de abdome e colocação de próteses de silicones nos seios. Notei seu contentamento por já ter operado mais de mil mulheres. Aproveitei a demora  para pedir um pote de passa de caju e um queijo Camembert. Compro uns pães na Casa dos Frios. Pago a conta e corro ao posto Esso da esquina. Abasteço o carro com gasolina, álcool nem pensar. Vou à loja de conveniência, tomo água gelada e em seguida um cafezinho expresso. Corro à livraria, compro um livro que aborda tudo sobre pintura moderna, mato saudade conversando com os amigos Alfredo e Yara.


Peço licença aos dois para atender um amigo ao celular. Depois entro no carro, pego Tareco no petshop e enfrento o corre-corre para deixar as compras e o cachorinho em casa. Volto ao trânsito caótico para ir ao médico, hora marcada pertence ao passado. Entro no consultório e percebo que tem três pessoas antes de mim para serem atendidas. A recepcionista grávida parecia alegre e alheia aos olhares indiscretos. Olho para o lado e apanho uma revista velha. "Caras". Nada sério. Rabisco uma poesia, duas, três até saber que eu seria o próximo. Ao final da consulta a médica afirmou que estava tudo em ordem comigo, apenas uns quilinhos a mais. Fico feliz. O tempo mudou radicalmente. Sem pestanejar resolvo seguir em direção à praia para comemorar. Mar azul, sol de 32º graus, belas mulheres a desfilar seus corpos esculturais. Tomo minha água de côco, caminho em direção ao carro e sigo o destino de casa. Almoço e agradeço a Deus a comida. Ouço algumas notícias no rádio,  leio o jornal e descanso fazendo um agrado em Tareco que se encontra aos meus pés. Tomo um cafezinho com adoçante, ligo o computador e vou trabalhar.


Quando chega a noite, em pleno inverno recifense, subo em um palco improvisado na rua e resolvo falar: sou uma pessoa simples, um amante da vida, da natureza, do belo, das ações que dignificam o homem. Só não sei atenuar o que fazem de errado, nem posso sublimar os momentos em que sabemos que serão de muita dor. Gosto de uma boa comida, do andar malicioso das mulheres, dos romances que resultam em superação. Por enquanto eu vivo a correr. Mas logo encontro motivos para apreciar a vida. Uma silhueta de mulher na noite pode modificar o tédio de todos os solitários. Ao vê-la mais perto, quase que olhando para mim, percebo serenidade em seu rosto, a delicadeza na pose, muita sobriedade em seus gestos. Pareceu-me tão feminina. Não havia mais dúvidas de que tudo se fizera dia em plena madrugada. Mas se havia esperança em conduzi-la pelos meus caminhos, só o tempo poderia dizer. Vou aguardar o meu amanhã. Em paz, só esperança guardo comigo.




  ooo

Conversa de fim-de-semana

Página Principal