Bico calado

Luiz Maia

Quem já acordou ouvindo o galo cantar sabe como isto é prazeroso. Apesar de residir na cidade, ainda ouço todos os dias o galo do vizinho anunciando o raiar de mais um dia. Num mundo tão artificial, isto para mim se trata de um tremendo privilégio. Mas, um dia desses, eu fiquei muito triste ao saber que uma autoridade ordenara que se tampasse, com fita isolante, o bico de um galo por incomodar alguns moradores de um bairro de periferia, com o seu canto na madrugada. Quem viu a reportagem pode atestar a veracidade. Aonde vamos chegar se ainda tem gente que se incomoda com os sons que vêm da natureza? Enquanto isso, existem milhares de pessoas que gostariam de ouvir o seu canto ao amanhecer, mas que infelizmente moram em altos edifícios e seguem convivendo diariamente com os inúmeros ruídos característicos das grandes cidades, bem diferente e distante do que há de melhor na natureza.


Notícias assim é que me levam a desacreditar nos homens. Preciso urgentemente respirar um novo tempo, alguma coisa diferente do clima pesado que nos cerca. Quero um lugar ameno para sobreviver, um cantinho onde os animais sejam vistos como uma graça divina. Uma cidade onde eu possa brincar com as crianças no quintal, um espaço lúdico onde possamos desenvolver uma convivência feliz entre homens e animais. Sinto-me cada vez mais sufocado pela ignorância que assola este torrão. Preciso acreditar que os surtos passam, na sensatez que entrou de férias, mas que, em breve, voltará a guiar os nossos passos. Seria muito bom que as pessoas compreendessem que o melhor lugar, o mais aprazível de todos, é aquele onde coabitam em harmonia os homens, as árvores e os animais. Um ambiente propício para que as pessoas se desarmassem e voltassem novamente a sorrir.




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Conversa de fim-de-semana

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