Camisa desbotada

Luiz Maia

Às vezes é preciso viver mais de quarenta anos para só então compreender que o melhor da vida é poder passar despercebido neste mundo. É estar só sem aquele sentimento de solidão presente. Viver sem ter compromisso com agenda, horários; sem se preocupar com o que as pessoas venham a pensar sobre você. Pouco importa a impressão causada, a demora na fila, a comida atrasada, se vai chover ou fazer sol. Já está impregnada na pessoa a consciência de que tudo passa e que é preciso apenas viver. Nada mais prazeroso do que poder ir a qualquer lugar sem tempo marcado, sem ser notado, a não ser por seu jeito "desleixado" de se vestir ou de se posicionar perante o mundo. Esteja onde estiver, a pessoa só impressiona pela forma simples de agir. Uma camisa desbotada, uma bermuda surrada e um boné na cabeça é tudo aquilo de que ela necessita para ser feliz.

Empregar no cotidiano um estilo de vida inteiramente despojado, longe dos padrões costumeiros, nada convencionais, é algo surpreendente que faz muito bem a quem o pratica. Só é possível avaliar a importância desse modo de ser quando alguém deixa de dar determinado valor a coisas que só na juventude faziam sentido. Nesse estágio já não se é tão exigente com sua aparência como no passado. As espinhas deixam de incomodar, agora dão distinção, passando a ser um traço da personalidade. A vaidade dá lugar ao desejo de contemplar e saborear a vida, de sentir prazer com as coisas simples à volta. Apenas interessa viver com intensidade cada minuto de que dispõe. Mas, infelizmente, isso só é possível de realizar quando o homem chega à maturidade. Somente assim ele pode usufruir uma vida distante da competição desenfreada, do consumismo exagerado. Sua preocupação se volta para uma melhor qualidade de vida. Já não é necessário buscar tantas explicações, muito menos compreender a razão de as pessoas correrem tanto. Afinal, nem elas sabem o destino que querem tomar.

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