Colher as flores...

Luiz Maia

Um dia os caprichos da vida me levaram para longe, distante do olhar sereno de minha mãe, dos beijos febris da namorada, do sotaque arrastado do meu Nordeste. Viajei mar afora, naveguei milhas distantes, ancorei num porto por entre vidas  errantes. Lá fora, sem fazer comparações com nada, vi que há muita gente falando a mesma coisa, sem nenhuma criatividade. Tudo é muito estranho, não há cumplicidade, não existem amor nem solidariedade entre as pessoas. Não, não quero mais ficar aqui. Numa noite de saudade eu lembrei os versos de Pessoa. Sobre os mares, o maior dos poetas portugueses, escreveu: " Não fui alguém. Minha alma estava estreita / Entre tão grandes almas minhas pares / Inutilmente eleita / Porque é do Português, pai de amplos mares / Querer, poder só isto / O inteiro mar, ou a orla vã desfeita / O todo, ou o seu nada "


Vou voltar. Definitivamente não suporto tamanha distância. Um dia voltarei ao lugar que me viu menino, de calças curtas, jogando bola, brincando de ser adulto. Não quero lembrar mais deste mar. Sei que vou voltar, quero deitar à sombra do meu coqueiro pois me disseram que de teimoso ainda vive no meu quintal. Vou singrar os mares, sarar as dores que me incomodam, colher as flores, já sem cores, pela saudade e a demora em me esperar. Quero ver anunciar o dia, junto com a alegria dos pássaros que um dia os deixei voar. Fiz tantos planos, só desenganos, só deu vontade de te esquecer. Mas vou voltar, sei que ainda voltarei ao meu lugar. Não será em vão, pois meu coração sabe aguardar.



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Conversa de fim-de-semana

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