Debaixo do Baobá

Luiz Maia

Costumo escrever aos jornais sobre assuntos que me incomodam e que de certo modo interferem no bom humor das pessoas sensatas. Dia desses eu me dirigi ao Parque da Jaqueira para conversar com os amigos. Ficamos reunidos debaixo de uma raríssima espécie de Baobá, árvore milenar e ainda preservada entre nós, quando um deles perguntou-me o porquê de eu não mais ter escrito fazendo minhas costumeiras críticas. Falei que existe o tempo de plantar e o de colher, e que eu já estava cansado de falar aos ventos. Além do mais eu precisava também refrescar a cabeça para pôr as idéias em ordem. Mas ele insistiu dizendo-me que eu teria de continuar metendo o cacete nessa gente, nesses governos corruptos que envergonham a classe política, etecétera e tal. Adiante disse-me que tudo o que eu escrevia batia com o pensamento dele. Antes de nos despedir ele reiterou várias vezes o seu desejo de poder ler nos jornais minhas cartas e eventuais artigos. Afinal, esse era o seu desejo.

Respeito o seu pensamento, mas o certo é que eu não estou desejoso de escrever apenas para satisfazer ao capricho do amigo. Escrever por escrever não faz nenhum sentido. Não estou querendo suprimir o desejo de ninguém, mesmo porque sem desejos a vida do homem deixaria de ser humana. Mas esse complexo animal chamado homem costuma deixar-se levar às vezes por estranhos desejos. Mas é certo que o homem humaniza-se quando aprende a superar a adversidade, abstendo-se de tentar realizar aquilo que não deveria. Este seria o preço a pagar por sua inesgotável tendência de caminhar rumo à felicidade, se quiser alcançar o que ela pode nos oferecer nesta vida. A bem da verdade eu resolvi que só devo escrever quando esse desejo vier acompanhado do prazer, satisfazendo a minha consciência.

Mas louvo a atitude das pessoas que buscam expressar sua indignação contra atos absurdos que acontecem neste nosso país, sem que possamos vislumbrar alguma providência visando redirecionar todos esses valores invertidos ao longo dos últimos anos. Erramos também quando não nos insurgimos contra isso. Falamos na maioria das vezes como se o problema estivesse somente no outro, pensando que assim podemos estar a salvos de críticas. Costumeiramente nos escondemos detrás de nossas malditas conveniências. Quem sabe um dia saiamos às ruas bradando que está tudo errado, dizendo que viver assim não faz o menos sentido. Parabéns às pessoas que têm consciência e não se conformam em serem felizes sozinhas.

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