Do alto da janela

Luiz Maia

Os namoros de antigamente eram completamente diferentes dos atuais. Nada se compara com as facilidades dos relacionamentos dos jovens neste início de século XXI. Eu também já fui adolescente, namorei, sofri por amor devido à inexperiência. Sempre fui um romântico inveterado. Certa vez comecei a gostar de uma garota que olhava a rua do alto de sua janela. Aquele era meu natural caminho, mas era impossível alguém passar sem notá-la. Talvez por seus cabelos castanhos ondulados, olhos apertados e um sorriso  discreto é que eu tenha me engraçado dela. Embora soubesse que naquele tempo poucas famílias dispunham de um telefone em suas casas, de tanto perguntar aos amigos um dia descobri o telefone dela. Dali em diante passamos a nos comunicar. Um dia criei coragem e a convidei para nos encontrarmos à tardinha no Parque Treze de Maio. Somente assim a garota saiu da janela e aceitou um encontro comigo.

Recordo-me dos detalhes que antecederam nosso encontro. Eu parecia um menino bobo escolhendo uma roupa especial para vestir. O meu vestuário não era grande coisa, por essa razão improvisei para impressionar. Vesti uma calça na cor palha, joguei por cima um blusão cinza em contraste com a camisa vermelha berrante. Engraxei o sapato, olhei-me no espelho e pedi uma bênção à minha mãe. E lá fui eu sorrindo imaginando poder abraçá-la pela primeira vez. Ao chegar no local marcado eu a encontrei em companhia da irmã. Quase esfriei, mas reconheço que antigamente era assim. Namorar em companhia da irmã era comum naquela época. Outras vezes voltamos a nos encontrar até que chegou o dia de pegar em sua mão. Senti o suor escorrer pelo rosto e um frio descer espinha abaixo. Nosso namoro não podia passar disso: um toque de mão aqui, um cheiro acolá, todas essas dificuldades contribuíam para arrefecer um namorinho sem pretensões. Certo dia, ao voltarmos de um cinema do bairro, percebi que aos poucos a menina da janela ia sumindo de minha vida. Até que eu soube que ela havia se mudado para São Paulo, sem avisar a ninguém.


A relação amorosa entre os jovens de hoje é melhor que no passado. Neste aspecto os adolescentes assumem uma postura mais sadia. Não relacionam sexo com pecado, algo sujo ou coisa que o valha. O namoro da atualidade é aberto, as pessoas dormem juntas, trocam carícias à vontade, viajam e conversam tranquilas sobre tudo que diz repeito à sexualidade humana. Este convívio pode propiciar um conhecimento mútuo mais profundo, culminando com relacionamentos mais estáveis. Já não existe, porém, a imagem da inocência de outrora. No entanto, é preciso observarmos os possíveis descaminhos proporcionados pela quebra de paradigmas, que poderiam levar as pessoas a confundir os saudáveis avanços de hábitos e costumes com problemas inerentes à promiscuidade. É só ter atenção e amar à vontade.



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Conversa de fim-de-semana

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