Havia um cheiro de flores no ar

Luiz Maia

Vesti uma bermuda surrada, escolhi uma camiseta velha e parti em direção à praia de Olinda. Era uma tarde de sol recifense, em que a preguiça toma conta da gente, quando resolvi dar uma chegada num desses barzinhos que fica ao longo da beira-mar. Assim que entrei nele, senti um clima agradável. Não demorou muito para notar que havia um cheiro de flores no ar. Pareciam-me rosas.  Lá o visual era estonteante: mar azul, céu azulado com nuvens brancas e a brisa soprando mansamente em meu corpo quase adormecido. Mas o melhor foi sentir o silêncio sendo cortado pelo som místico do mar batendo nas pedras de contenção. Chamei o garçon e pedi uma cerveja, acompanhada de agulhas fritas. Minha mesa ficava num local assombreado, donde eu podia ver quão bonita é a natureza quando apreciada com os olhos do sentimento. O ir e vir das ondas só aumentava minha preguiça. Eu só queria ficar o resto da minha vida assim, usufruindo as benesses da natureza, as maravilhas da vida, tomando cerveja e comendo peixe frito.

 

Continuei bebendo minha cerveja, comendo agulha frita, quando de repente senti que fui tocado nas costas. Era uma garota a me oferecer rosas, chamava-se Maria. Talvez querendo me livrar dela, disse-lhe que apesar de ser gentil eu estava sozinho sem ninguém para presentear com flores. Ela insistiu dizendo-me que eu era uma pessoa muito simpática e que logo, logo alguém chegaria ali para me fazer companhia. Tentando me convencer a todo custo, falou-me de sua luta para sobreviver, das irmãs mais novas que ela tinha para criar, etc, etc. Afinal de contas, cada botão de rosa custava tão pouco, somente R$ 2,00. Então selecionei cinco e lhe paguei os dez reais. Vi seus olhos brilharem ao me dizer que eu ainda seria muito feliz um dia, que muito em breve eu iria arrumar uma namorada para ganhar muitas flores. Depois, ao vê-la se retirando ao se despedir de mim, comecei a fazer comparações entre o cheiro das rosas e a alma pura de Maria...

 

Meninos e meninas em idade escolar estão trabalhando para prover o sustento de suas famílias em nosso país. Quanto mais pobre é a região mais crianças encontram-se abandonadas, muitas cheirando cola pelas esquinas e outras delinqüindo por falta de políticas públicas que contemplem essa parcela significativa de jovens. O que esperar de um país onde o futuro de milhares de crianças está irreversivelmente comprometido? Quantas Marias vão continuar a vender flores nos bares para suprir suas necessidades ao invés de estarem nas escolas? Eu deixei de questionar para olhar o mar que começava a ficar esverdeado com a proximade da noite. Quando o pôr-do-sol apontou e o céu escureceu, percebi então a necessidade de pensar nessas pessoinhas que lutam para superar suas carências, preocupando-nos com o destino deste país.

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