Imagens distorcidas

Luiz Maia

Qualquer pessoa se tiver a chance de retornar aos lugares percorridos na infância vai notar que as imagens guardadas na lembrança não condizem com aquilo que verá agora. A ideia de espaço, beleza e altura muda com o passar do tempo. Quando se é criança, a perspectiva é uma. Na idade adulta, as percepções se transformam. O que antes parecia moderno, bonito e inovador, hoje pode ser considerado ultrapassado, em alguns casos, feio até. É o caso, certamente, de alguns modelos de automóveis, que um dia foram motivo de admiração e deslumbramento e hoje causam apenas estranheza. Antigamente, o período de inverno parecia mais chuvoso, com relâmpagos mais frequentes e a temperatura mais amena. Agora tudo está diferente, a instabilidade climática alterou as características das estações do ano. Na infância, os adultos pareciam bem mais altos, mais velhos, ainda que não tivessem pouco mais de quarenta anos, e infalíveis. Mas para as crianças eram verdadeiros super-heróis.

 

O aroma das plantas, o sabor das comidas, o medo de estar no escuro, a demora notada para findar o ano, tudo isso adquire um outro aspecto quando se amadurece. Tudo se torna diferente. De igual modo, as casas urbanas davam a ligeira impressão de serem enormes sítios. Interessante como, ao visitar aquelas mesmas casas hoje, com oitões livres, grandes terraços, quartos confortáveis, imensas árvores frutíferas e outros benefícios, mesmo assim quase nada faz lembrar a imagem que se tinha daquela criança tentando superar os enormes desafios, só encontrados nas casas com quintais. Há uma defasagem entre as impressões gravadas na infância e a realidade vivida pelas pessoas ao se tornarem adultas. Chega a ser impressionante descobrir como tudo era diferente aos sentidos durante a infância. Até parece um mundo irreal, uma outra existência. A bem da verdade não existe uma só criatura no mundo que em algum momento de sua vida não tenha dito - "como este ano passou rápido!". Ou então - "parece que foi ontem que fomos ao seu casamento!". Talvez por isso eu esteja aqui relembrando detalhes que são perceptíveis aos sentidos de todos nós. Exercite seu raciocínio e verá se tenho ou não razão.




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Conversa de fim-de-semana

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