Meu herói

Luiz Maia

Lembro-me bem que, ao chegar o Natal, eu ouvia diversas vezes o ator e comunicador Altemar Paiva declamar na tevê um texto muito triste de sua autoria. Narrava a dor de um pai por não poder comprar um presente de Natal para dar ao filho. Isto há cerca de 50 anos. Eu era criança e me emocionava sempre que o escutava. Mas até os meus 6 ou 8 anos eu acreditava na figura do "bom velhinho". Achava legal aquilo. Porém a realidade para muitos era bem diferente. Principalmente para a maioria da garotada cujos pais não dispunham de dinheiro para presenteá-los. Mesmo entendendo que a data deveria apenas lembrar o nascimento de Jesus Cristo, há um misto de encantamento e tristeza na figura do Papai Noel, pois nem todos têm condições financeiras de satisfazer os sonhos de consumo dos filhos. O drama daquele pai pode até parecer ficção para muita gente. Sabemos, entretanto, que os desníveis sociais caminham conosco através dos tempos, como feridas abertas que necessitam ser estancadas.

 

Nessas horas não tem como eu esquecer da figura espetacular do meu pai, um verdadeiro herói para mim. Com minha mãe e sete filhos para criar, ele sempre quis dar o melhor de si para todos nós, esquecendo-se muitas vezes dele próprio. Nosso pai jamais mediu esforços nesta época do ano para nos presentear com roupas e sapatos, carrinhos e uma série de outras lembranças que nos deixavam felizes. Trabalhava demais para nos conferir um certo conforto. Naquele tempo nós não entendíamos nada do que seria a luta pela sobrevivência, sabíamos apenas do seu fascínio pelo trabalho e do seu imenso amor à vida. O Natal traz sempre consigo um sentimento dúbio de alegria e tristeza, principalmente se a pessoa já amargou a dor da perda. É inevitável não ficar alegre pela data que marca a vinda ao mundo do Messias. Às vezes, no entanto, ficamos tristes, quando movidos pela forte recordação daqueles que já se foram do nosso convívio.


 



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Conversa de fim-de-semana

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