Meus vinte anos

Luiz Maia

Ainda ontem eu tinha vinte anos... Os anos passam rapidamente. Hoje, ao lembrar de um tempo distante que deixou saudade, você talvez nem lembre mais de mim. Eu parecia um menino, ignorando o tempo, brincando com a vida. Em sua companhia eu gostava de escutar a música "Affida una lacrima al vento", pois achava que era a sua cara. Será que você esqueceu? Os mistérios da vida eu não os conhecia, e parece que ainda os desconheço. Sem saber de nada eu cansei de não levar a sério as coisas do amor.

 

Eu tive muitas namoradas, mas você fingia não saber nada do que acontecia comigo. Você sentia ciúmes delas, mas reconheço que fui pouco romântico com quase todas. Quantas vezes deixei de dizer que você era o meu grande amor? Quando se ama, a timidez é o que prevalece. A gente, quando ainda jovem, desconhece os caminhos da afetividade porque os mais velhos esquecem de nos ensinar. Nem eu nem você sabíamos nada de sexo, de amor nem de paixão. Só os nossos olhares diziam um pouco daquele nosso desejo. Um dia eu passei a freqüentar várias boates, a conhecer mulheres tristes, risos falsos e algumas garotas ainda meninas "fazendo amor" em troca de pão. Desse modo eu tentava aprender sem sucesso os mistérios do amor.

 

Eu sempre fui um sonhador e amei a vida como poucos. Fiz inúmeros projetos e sempre mantive a esperança. Só não imaginava que os dias passassem rápidos como o vento. E com que rapidez as lembranças me chegam! Hoje eu sei quão enganosa às vezes é a vida. Você se lembra das vezes em que eu lhe disse que o seu cheiro era diferente do das outras meninas? Lembra-se ao menos das flores que eu lhe dava, roubadas dos jardins da vizinhança? Eu queria lhe falar de dissabores, quando comecei a ver alguns projetos meus se perderem no ar, mas foi melhor poupá-la dessa dor. Você sabia que eu não me cansava de exaltar a esperança por onde passei, e como eu sofria ao vê-la se dissipar.

 

Ainda ontem eu tinha quarenta anos... Agora, meio perdido, não sei o que fazer para compreender o passar do tempo. Existe um vazio em mim difícil de acreditar. Sinto a falta das conversas entre irmãos, dos risos fáceis, dos afetos recebidos que marcaram a minha infância. Do carinho de minha mãe, do jeito austero do meu pai. Até dos castigos dele eu sinto saudade. Eu só fiz correr o tempo todo acreditando que um dia pudesse parar o tempo. Corri a vida inteira sem meditar no amanhã. Onde estão os meus amores, os meus amigos que não os vejo mais? Aonde andam vocês que foram importantes na minha vida? A gente, ao falar do passado, toca na sensibilidade e pode se machucar. É delicado tentar expressar sentimentos. Com o passar do tempo nós aprendemos que essa "despedida silenciosa" da vida, pode nos deixar angustiados se não soubermos valorizar o momento presente, tudo aquilo que felizmente somos hoje.

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