Um certo encantamento...

Luiz Maia

Quando Monteiro Lobato morreu, as crianças choraram. Sua dor se assemelhava à dor da perda de alguém muito próximo. Era evidente a identificação da meninada daquela época com os textos do criador de personagens inesquecíveis, como Emília, Narizinho, Dona Benta e Tia Anastácia. Não é tão incomum o público sentir-se próximo daqueles a quem admira no mundo das letras e das artes. Até parece que os ofícios de escrever, compor, cantar e interpretar trazem consigo uma certa permissão de intimidade. As manifestações dos fãs não deixam dúvidas quanto às paixões que podem surgir diante das emoções provocadas pela sensibilidade de quem faz do seu trabalho uma ponte para despertar nos outros sensações variadas. Há quem admire seu autor predileto, quem julgue amar incondicionalmente o poeta que escreve versos tão puros e belos, quem sinta um amor fraternal por aquele que fala ao seu coração com mensagens de paz.

 

Contrariamente, a expressão artística também pode atrair sentimentos de raiva, ódio, desprezo e indiferença. É intrigante buscar entender como essas relações se desenvolvem. Como é que um estranho consegue provocar em alguém sentimentos tão reais e vívidos? Há até quem se apaixone pelo autor de textos ou canções que tratam de temas com os quais se identifica ou que vão ao seu encontro num momento de fragilidade emocional. É preocupante, porém, quando a admiração ultrapassa a linha da razoabilidade e a pessoa não mais distingue a fantasia da realidade. A relação de apreço pode transformar-se em idolatria, onde os defeitos passam despercebidos e as qualidades são supervalorizadas. O indivíduo, assim envolvido com o seu ídolo, deixa de viver sua própria realidade e embarca num mundo de sonhos e ilusões. É preciso cuidado para que um sentimento natural de estima, respeito e consideração por quem, com seu trabalho, desperta um encantamento, converta-se numa paixão cega, fonte provável de decepções e desilusões. O relacionamento do público com as personalidades que estima deve ser algo saudável, sem excessos, nos limites do bom senso.


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Conversa de fim-de-semana

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