Um olhar sobre a cidade

Luiz Maia

Num desses dias ensolarados, que nos causam uma preguiça danada, olho de lado e vejo um homem triste. Embora seu olhar distante me chamasse a atenção, saio por aí como se nada tivesse acontecido. Por instantes eu ignoro a angústia alheia e resolvo caminhar observando apenas a paisagem. Sigo indiferente à falta de espaços com mais verde, ignoro a poluição visual que emporcalha as cidades. Noto a água suja do rio que, parecendo lama fétida, percorre seu leito sem reclamar do mal que lhe fazem. Vejo crianças vendendo frutas nos sinais, pedintes aborrecendo homens e  mulheres a mendigar um auxílio qualquer. Gente sem futuro, que nasce nas ruas das periferias, pessoas que passam fome engrossando as fileiras dos deserdados da pátria. Algumas pessoas já me disseram que todo homem preocupado com o outro é infeliz. Não gosto de me abster de opinar, delicio-me com as plausíveis revelações, jamais me contento com silenciosas palavras.


Mas um simples olhar sobre a  cidade revela casebres, mansões e favelas a disputar espaços. São disparidades sociais que certamente nos humilham. Os grandes edifícios de muros altos, eletrificados e com câmeras por todos os lugares, funcionam como jaulas horrendas. Verdadeiras estruturas sociais medíocres que compõem um país da pobreza crônica, indiscutivelmente erguidas no mais lindo torrão do planeta terra. Alguns já me falaram que finjo as coisas que costumo escrever. Sei bem que não é verdade. Só não posso é me acostumar com uma realidade que julgo injusta e perversa, nem compreender a indiferença de tantos. Mas, se a realidade é muito difícil de compreender ou interpretar, pior será quando nos faltarem os parâmetros necessários, extraídos da história ou de nossa própria experiência. Talvez o mundo esteja a caminhar para a inexorável valorização do ser humano, único meio de salvaguardar o que ainda resta de bom no planeta.

 




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Conversa de fim-de-semana

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