A amiga que vejo ao longe...

Luiz Maia

Acostumei-me a ouvir desde cedo coisas relacionadas à história de Portugal, à vida e à tradição do seu povo. Sua cultura está impregnada do mais puro lirismo. Povo desbravador e emérito conhecedor dos mares. Sobre esses mares, Fernando Pessoa, o maior dos poetas portugueses, escreveu: " Não fui alguém. Minha alma estava estreita / Entre tão grandes almas minhas pares / Inutilmente eleita / Virgemmente parada / Porque é do Português, pai de amplos mares / Querer, poder só isto / O inteiro mar, ou a orla vã desfeita / O todo, ou o seu nada "

No meio daquelas pessoas simples, fica fácil constatar o elevado grau de religiosidade que permeia e dá sentido às suas vidas. Quantas e quantas vezes fui dormir a ouvir o fado, a bela e dolente canção portuguesa. Nunca fui a Portugal, mas guardo registrados na mente suas ruas, rios, musicalidade, festas cíclicas, folguedos, tradição, culinária – ah! os bolinhos de bacalhau, o vinho do Porto, a sopa de caldo verde, o pão-de-ló e tantas outras iguarias! Ah!, meu Portugal, morro de saudades de ti, sem ao menos ter tido a felicidade de um dia ter colocado lá os meus pés!

O meu pai era um bom português. Natural do Porto, mais precisamente de Vila do Conde, freguesia de Canidelo. A casa da minha avó Amélia no Recife mais parecia o Consulado Português, tamanha a freqüência de pessoas amigas que chegavam de Portugal ou que para lá estavam indo a passeio. E nesse ambiente vivi praticamente toda minha infância e parte da adolescência. "Era uma casa portuguesa, com certeza! Tinha quatro paredes caiadas e um cheirinho de alecrim". Isso é parte de uma música que lembra aqueles tempos. Época tão maravilhosa em que eu ainda não havia me acostumado às perdas, visto que a morte era alguma coisa estranha a mim. Aqueles dias pareciam eternos. Quando se é criança, o tempo não nos cobra nada. Difícil o dia em que não ouvíamos falar do fado, da Alfama, da Mouraria, do Benfica, do bacalhau, do bom vinho do Porto... Quantas lembranças estão guardadas para sempre lá no recôndito de minha alma!

Mas aquele Portugal querido, que parecia não mais fazer parte de minha vida, de repente ressurge na figura da amiga Fátima Santos. Tu és, Fátima, "A amiga que vejo ao longe..." Amiga que fez renascer em mim o bem-querer que sempre devotei à Terrinha do meu saudoso pai. Ao te ler, a cada palavra tua, algo de forte me remete à infância, a querer rever coisas que não existem mais. E aí, mais que nunca, brota em mim o imponderável desejo de ver-te. Essa amizade além-mar fortalece em mim a crença de que as almas não se encontram por acaso. Há mais que uma simples amizade entre nós, existe toda uma cumplicidade embasada em inúmeras afinidades. Tua amizade me faz bem. Saber de ti, agora, é como aspirar o próprio oxigênio que nos dá vida.

Tu és, Fátima, " A amiga que vejo ao longe..." Portugal está bem mais presente em mim porquanto tu em mim vives.

Agora falo de lágrimas. Lágrimas, tantas foram as lágrimas aqui derramadas. Era provável de acontecer. Lágrimas amigas e solidárias que correm a me aliviar.

Agora falo de saudade. E são tantas as saudades: saudades da infância e de um pai que se foram. Saudades de ti. Saudade do hoje, posto que amanhã será tarde sentir saudade. Por fim, em tua homenagem, um verso do grande poeta: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena".

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