Aconteceu comigo

Luiz Maia

Estávamos no ano de 1963. Reunir os amigos no terraço, à noite, para conversar amenidades e nos divertir, era algo habitual e prazeroso em minha casa. Eram momentos, no mais das vezes, descontraídos e alegres. Eu estava com 16 anos de idade. Apesar do tempo transcorrido, continua vívida em minha mente a lembrança de uma ameaça sofrida pela minha família, protagonizada por um militante esquerdista, envolvido com a guerrilha derrotada pelas Forças Armadas do Brasil, em 31 de março de 1964.

 

Foi no dia 22 de novembro, quando tomamos conhecimento que John Kennedy, presidente dos EUA, fora assassinado, atingido por dois disparos de arma de fogo. Meu pai fez um comentário elogioso, sem qualquer pretensão, àquele que, para ele, teria sido um grande Estadista. Um amigo, ao escutar o elogio, ficou completamente transtornado. Sua face expressava, além de muito ódio, um incontido descontrole emocional, difícil de explicar. Para nossa surpresa e indignação, pela proximidade dele com nossa família, ouvimos, do suposto amigo, o seguinte: “quando a Revolução Comunista triunfar no Brasil, vamos matar e pendurar nos postes os burgueses, os comerciantes imigrantes e os reacionários deste país”. O meu pai era português e foi comerciante por 60 anos no Brasil. Sinceramente não sabíamos o porquê de suas palavras, de tanto ódio recolhido contra pessoas por quem ele dizia ter grande consideração.

 

Estudamos juntos no Colégio Estadual de Pernambuco, nos anos 1961 e 1962. Lá ouvíamos falar do “Grêmio Literário Monteiro Lobato”. Só depois soubemos tratar-se de uma célula comunista, onde ensinavam, entre outras coisas, táticas de guerrilha urbana. Convites para que fôssemos participar não faltaram. Eu, particularmente, nunca aceitei por não ter interesse, preferi sempre jogar futebol. Apenas nos idos de 1980 foi que entendemos a verdadeira razão de existir daquela célula comunista. Naqueles anos, eu era alienado com relação à vida política do País. Eu não sabia que vivíamos um período difícil que antecedeu o dia 31 de março de 1964. 

 

Após o ocorrido, quando se pronunciou de forma sectária, o agressor fechou a cara e nunca mais voltou. Depois soubemos que ele e outras pessoas estavam foragidos. Nem meu pai, nem eu, nem os amigos de infância sabíamos a razão do que estava acontecendo.  Só muito mais tarde é que compreendemos melhor a realidade daquele momento, a gravidade daquelas ameaças. Hoje há relatos dele à imprensa abordando sua experiência no pós 1964, quando foi preso e torturado pela contra revolução implantada no Brasil. Dele não guardo rancor, ódio, nem sentimentos menores; mas entre nós houve a natural quebra de confiança. Confesso que não gostaria de vê-lo sofrendo nem a nenhum dos outros revolucionários. Mas eles sabiam que não se abraça uma causa desse porte sem correr riscos.

 

Ele e seus companheiros precisam dizer publicamente qual era a verdadeira intenção dos revolucionários, que praticaram atos terroristas, crimes, roubos e sequestros, se a causa deles houvesse triunfado. A bem da verdade eles não podem dizer que são democratas. Falam em democracia e em estado de direito, mas, tão logo haja uma oportunidade, assumem o poder sem qualquer escrúpulo. Eles queriam implantar no Brasil o modelo "democrático" cubano, a ditadura imposta aquele povo há mais de sessenta anos. Se a revolução comunista houvesse prosperado o que seria de nós? Estaríamos, por acaso, conversando naturalmente ou na lista dos executados no paredão? Certamente teríamos morrido, inocentes, sem saber sequer a razão, vítimas daqueles que hoje são conhecidos, pelas forças que o combateram, como "os arautos da mentira, disfarçados de democratas".

 

Recentemente foi instalada a “Comissão da Verdade” em Pernambuco. Entre suas atribuições está a de “colaborar com todas as instâncias do poder Público para a apuração de violações de Direitos Humanos, observadas as disposições da Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979″, conhecida como Lei de Anistia. Sem querer entrar no mérito, questiono a credibilidade desse trabalho, já que apenas um lado dos fatos está sendo ouvido. Qual a verdade que será apurada afinal? Ficarão embaixo do tapete os crimes hediondos dos militantes guerrilheiros? Pelo visto, a tal comissão se resumirá a meias verdades...

 




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