A dor de quem ama e é feliz

Luiz Maia

Poder-se-ia pensar qualquer coisa, menos imaginar alguém sentir dor por se achar feliz, sendo amado e amando imensamente a pessoa de seus sonhos.

Aquele que se dignar a caminhar pelos labirintos da complexidade humana vai se deparar com um vasto e rico arsenal para estudo. Expoentes como Freud, Jung e Shakespeare já estudaram e codificaram alguns aspectos do variado comportamento humano, à luz da emoção e da razão que despertam dentro de cada um de nós.

Estranho então alguém dizer sentir dor, e até um indisfarçável incômodo, por estar vivendo um grande amor e sendo muito feliz. Não há nenhuma incoerência nisso. Apenas é preciso se observar que amar não é navegar em nenhum mar de rosas. É imprescindível para quem ama estar sempre buscando o equilíbrio na relação, numa inconstante aprendizagem de fazer ver a si mesmo que amar é doação, sem que jamais isso canse. Que amar é entrega sem esperar nada em troca, sem que isso o leve ao desânimo. Que amar é, sobretudo, exercitar o salutar hábito de se fazer feliz com a consciência de quem faz feliz o outro e de que isso lhe basta.

Parece até mesmo que quem ama, quem vive momentos de perene felicidade, costuma estar sempre a se sentir ameaçado por algo que venha, de um momento para outro, pôr um fim àquele seu estágio de contentamento. Pode parecer normal se também não parecesse doentio. Algo que tem muito a ver com a mania de alguns de valorizar a impotência que vive latente neles, mas que vez ou outra parece querer eclodir como um vulcão adormecido, tentando jogar para fora todos os seus medos. Esse medo guarda relação com algo desconhecido, por isso mesmo provocador de perguntas que vão se somando e que ficam sem respostas.

A verdade é que em muitos casos, ou quase sempre, quem ama sofre e chega a sentir dor. É a dor do prazer nele estabelecido causada pela felicidade que, à medida que vai se consolidando, passa a exigir mais de cada um. E aí a natural exigência de novos cuidados é necessária para a preservação de sua "tranqüilidade", baseada na total e plena segurança do amor correspondido. Afinal de contas, não se sabe até onde vai o grau de satisfação do outro, por isso mesmo o máximo de atenção nunca é demais. Essa cobrança diária varia de pessoa para pessoa e existe em cada um, mesmo que de forma involuntária. É algo muito mais instintivo que mesmo racional. Muitas vezes a pessoa insegura passa a imaginar possibilidades que poderiam desestabilizar uma relação aparentemente tranqüila, só não a sendo devido ao medo de vir a perder o ser amado para alguém por ele imaginado. Alguém que não existe, mas que o persegue vez ou outra, e aí a dor é inevitável.

Nesses casos sofre-se por ser feliz e a consciência dessa felicidade traz consigo o perturbável medo de poder vir a perdê-la. Quem ama alguém verdadeiramente sente a necessidade de segurança a todo momento. Mesmo que seja uma pseudo segurança conquistada através de palavras, gestos e principalmente de atitudes. É claro que nunca isso vai ser possível por sermos humanos e, como tais, via de regra, seres mutantes e eternamente insatisfeitos. Haverá sempre em cada um de nós a eterna insatisfação, mesmo em se tratando de pessoas reconhecidamente felizes. Um porquê de sermos tão complexos.

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