A moça de Araraquara

Luiz Maia

Foram precisos vários meses para que aquela moça viesse a perceber que tudo mudara em sua vida, que os dias jamais seriam os mesmos e que agora era uma mulher. Mais que mulher, passara a ser também mãe. Ainda jovem e já abraçada à responsabilidade de criar um filho. Por outro lado, a satisfação da maternidade fazia com que mergulhasse de cabeça na difícil missão de criá-lo com dignidade e amor.

Araraquara é a sua terra, lugar em que nasceu e onde sempre morou. Quando jovem, era bastante assediada pelos rapazes, tanto por sua beleza quanto pelo jeito extrovertido e alegre de ser. Foi durante muito tempo conhecida como a musa dos poetas desta cidade do interior paulista. Não foram poucas as vezes em que teve que se debruçar à janela para ouvir uma serenata.

Às vezes era até difícil conviver com tamanho carinho. Sua espontaneidade e simpatia contribuíam para torná-la simples e popular. Muito apegada à família, tinha no pai o ídolo maior, um espanhol de sangue quente embora afeito à tranqüilidade do lar.

Ao falar comigo, a emoção a invade ao lembrar dos lindos entardeceres do lugar onde nasceu e que tanto ama. O cair da tarde por sobre os eucaliptos a deixa extasiada a ponto de transparecer em seu semblante essa sensação difícil de descrever. É o pôr-do-sol de Araraquara de que tanto falou e que um dia pude comprovar. Num dos momentos de pura contemplação à natureza, eu estava ao seu lado. Pude perceber a maneira simples com que fala com Deus. Suas conversas evidenciam a sensibilidade que lhe é característica. Tem por hábito exaltar o lado bom das pessoas, principalmente dos amigos que tem e que tiveram a sorte de um dia vir a privar de sua amizade. Nada mais natural que os amigos e admiradores sejam encantados em tê-la como amiga.

Mas o que ela teria de especial? O espírito de solidariedade que guia as suas ações. Por isso é tão admirada. Eu sou um dos humildes amigos e disso muito me orgulho. Cansei de saber das vezes em que saiu do sossego do lar para prestar auxílio a um amigo em desespero, mesmo tendo de enfrentar distâncias consideráveis. Essa eterna preocupação com o outro, a vontade de aliviar o sofrimento que se apoderou de alguém, o desprendimento em ir logo ao encontro de quem está a passar por dificuldades, mesmo não sendo uma pessoa de posses, é o que encanta e comove, impelindo-me a escrever esta página. Simples homenagem, mas o suficiente para exaltar as qualidades de uma jovem que traz consigo a nobreza de sentimentos, tornando útil e bela sua existência. Não sei de onde vem essa solidariedade. Talvez seja fruto da precoce maternidade. Ter aos seus cuidados alguém indefeso e dependente pode ter-lhe despertado o amor ao próximo e acentuado a afetividade natural que acredito ser peculiar às mulheres.

A escassez do sentimento de solidariedade no seio das pessoas, hoje em dia, faz pensar que essa desenfreada luta pela sobrevivência, o descalabro da cruel competição entre os homens, a inocente busca por um espaço digno de vida, tudo isso afasta mais e mais uns dos outros. E à medida que vamos nos distanciando, imediatamente passamos a nos sentir demasiadamente sós. Daí por diante o homem passa a amargar o sentimento de solidão que o escraviza na consciência de que já não há razão em viver. O sol de repente passa a ser noite, cansáveis noites que mais parecem não ter fim.

Por isso haverá dentro de mim espaços condizentes com a necessidade de exaltar pessoas assim, como a amiga querida de Araraquara. É a esperança de ver mais exemplos de quem se lance a uma vida solidária e fraterna. É a crença de que o amanhã poderá ser mais humano. É a expectativa de existirem melhores oportunidades para os jovens que precisarão ter sólidos valores éticos para que a nossa esperança não seja vã.

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