Ao cair do tempo

Luiz Maia

Amanheci refém do tempo. Sempre que paro para pensar na vida, logo o tempo parece ameaçar o meu momento de plena felicidade e prazer. Sinto-me ameaçado pelas horas que voam, como se estivesse próximo o instante de passar a vida a limpo. Vem a necessidade de algo que amenize esse comportamento e que me faça ver que a vida é para ser vivida e que devemos torná-la alegre e digna, para que mais adiante tenhamos lembranças boas e prazerosas.

Se já noto um certo cansaço em meu viver, se reside em minha alma o receio do porvir, que tantas vezes cantei e busquei, então que nasça em mim a vergonha de proclamar às pessoas os meus medos do tempo que parece se esvair por entre os dedos. Ou que nasça em mim a coragem de dizer que tudo vale a pena e que o tempo presente é a única coisa que nos resta.

Hoje peço a Deus inspiração para só vislumbrar um porvir repleto de acontecimentos dignos e prazerosos. Momentos marcados pela constância da prevalência do bem sobre o mal. Onde nos sintamos inclinados a amar e a repartir com o próximo. Onde o aprender e o ensinar se misturem e não haja o sábio nem o ignorante. Sejam ambos um só. E assim faça-se vir o tempo da liberdade e da igualdade plenas. Algo que nos leve a refletir por que somos tão carentes de nós mesmos. À medida que não nos entregamos ao outro, eis que a nossa metade fica comprometida e assim nos sentimos órfãos à procura de nós próprios.

É tempo de viver o que nos resta. Reavaliar valores. Buscar aplicá-los no dia-a-dia. É tempo de descobrimos o novo, mesmo que nos ofereçam algo com aparência velha, mas que seja novo. E o novo, mais que novo, é você se descobrir em permanente mutação a acompanhar o ritmo da canção do amanhecer, com a mesma ênfase com que tece a prece do entardecer. A cada dia uma nova experiência nos é concedida como prêmio pela espera que não é vã.

A natureza é sábia e vive a nos ensinar quão importante é saber aguardar a manifestação das estações, como a nos dizer que há tempo para tudo. Impossível é colher algo que não plantamos. Daí é imperativo nos insurgimos contra a inércia que normalmente acomoda e paralisa as mais criativas e eficazes ações.

Hoje já não quero maldizer o tempo. Até porque foi o tempo que sempre nos colocou diante das possibilidades e nos fez felizes durante a maior parte de nossa existência. Hoje quero e preciso ser contemplativo com o tempo. Carrego comigo o pudor de quem sabe mensurar o inventário da vida. Jamais poderia ser rigoroso e implacável com ele, já que dele extraí tudo que sou e que tenho.

Agora quero e preciso erguer um brinde à vida. Esperar outra vez setembro chegar e colher a flor que é dela. Imaginar o florescer de campos onde apenas germinem a paz e a esperança. Provaremos, todos juntos, do fruto do perdão que é jogado sobre nós, diariamente, em forma de infinitas misericórdias que nos redimem. Já não serei mais refém do tempo...

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