Aquele olhar...

Luiz Maia

De tanto ver aquele homem, de ombros caídos e olhar em direção ao nada, numa postura de contemplação, me veio uma incrível vontade de adivinhá-lo. Algo nele me era familiar. Talvez o olhar manso de quem anseia receber frutos da esperança que se foi. Ou mesmo seu cabelo branco em desalinho a contrastar com o roto paletó azul-marinho. Tudo nele era mistério. Seu semblante era misto de paz e austeridade. Seu jeito eqüidistante fizera com que mais e mais me aproximasse dele. Indiferente à presença alheia, seguia sua rotina de pura contemplação do nada.

Aquele olhar de saudade e de incerteza do porvir não difere do olhar de todos nós, homens de fugaz passagem por um mundo repleto de falsas expectativas. Não é difícil para mim entender o que vai além do que posso enxergar. Muito ao contrário. Creio firmemente no que não vejo. Apenas sinto. Aquele seu ritual comanda suas emoções, repetindo-se na simplicidade do seu dia-a-dia. Nele, a alegria ou tristeza, a satisfação ou o choro, o entusiasmo ou desânimo resumem o quadro da nossa existência. Aquele homem representa uma partícula do todo que somos. Nossas emoções, anseios, fraqueza e grandeza estão singularizadas em cada gesto, atitude ou pensamento seu.

Muitas vezes, refletir é um ato de ação, mais que um simples momento de questionamento do que não deu certo ou do que poderá dar. Sua atitude me parecia um modo de contrapor-se às causas que o levaram a adquirir aquele corpo frágil e desnutrido, possíveis conseqüências da fome que o visitara por um bom tempo. Dá para sentir a enorme vontade dele de sobreviver a um mundo selvagem e não complacente com o próximo.

A fome, a educação relegada a planos inferiores, a desnutrição, a perversa concentração de renda, o desemprego asfixiante denunciam a arrogância de uma sociedade capaz de ignorar sentimentos de respeito à condição humana. Todas essas coisas estão explícitas no seu olhar, mas veladas no coração. Há que se ter tempo para tentar adivinhar o outro. Mergulhar nas suas dores e amenizar seu desencanto. As dores do mundo estão representadas no peito dele — fiel amostra dos desvalidos.

Ser cúmplice na dor não me contenta, pois o que me sobra é a certeza da minha inutilidade e descaso quando abdiquei da cidadania. Participar era o mínimo que eu devia ter feito e o máximo por ele ‘querido’. Esse meu entendimento de compreensão, ao contrário de me satisfazer, me machuca. Se hoje há em mim compreensão, bem que devia ter sido de há muito duradoura e não projeção de culpas circunstanciais.

Havia um rotina que se instalava em torno desse homem, simples e desprovido de poder, a não ser do poder de fabricar em mim a doce ilusão de que sou bom, de que ainda me preocupo com o próximo. Ai como dói a consciência de quem se põe por instantes na pele do outro. De alguém que cada vez está mais próximo de nós. Às vezes vivemos uma vida inteira e não percebemos isso.

As linhas divisórias entre o real e o devaneio se misturam. Aquele olhar perde a forma de ficção e ganha corpo da solidez da objetividade. A figura daquele homem pertence a um tempo quase ignorado, distante da modernidade do presente. Vejo-o se distanciando de mim. Exato momento em que minha impotência diante do imponderável cristaliza-se. Sinto saudade do seu olhar. Saudade de um homem sem história, como milhares que pululam à nossa frente, nas esquinas da vida.

Faz-se noite. As ruas da cidade, iluminadas a mercúrio e a gás neón, estão acesas e dão um toque de alegria às pessoas que passam num tremendo frenesi. Já ninguém se lembra daquele homem de olhar cativo. Seus desejos e anseios foram mais uma vez transferidos para o amanhã. Dele me lembro e muito bem. Em mim, a saudade gostosa vai se solidificando. Resolvo ir embora e tratar da minha vida, já de muito esquecida. Sou inteiramente absorvido por inúmeras atividades. Isso faz com que o tempo discorra, flua com mais rapidez, dando-nos a suposta impressão de que somos mais que úteis. De vez em quando, o desejo de voltar se acentua e me vem o gosto do remorso do esquecimento.

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