A solidão da vida moderna

Luiz Maia

O homem, em toda a história, nunca deteve tantos meios para ter acesso às informações, como nos dias atuais. Os avanços da tecnologia são inegáveis. A ciência consegue feitos extraordinários, com uma série de descobertas que em breve poderão significar o aumento da expectativa da vida. O Projeto Genoma está à frente dessas descobertas que colocam o homem a um passo da nova e revolucionária medicina. A informatização vem transformando as relações de trabalho, modernizando as atividades produtivas, proporcionando ganhos de produtividade que poderão influir na distribuição de renda. São inúmeros os avanços que buscam oferecer maior conforto e qualidade de vida às pessoas. Esses fatos podem ser indicativos de como a sociedade se renovará neste início de século.

Mas na prática, o filme é bem outro. Em que pese toda transformação positiva, nunca o homem viveu um conflito existencial tão relevante como agora. Esse conflito tem algumas explicações, sendo a principal a que o homem está perdendo o seu contato com Deus. Trocou-se uma relação espiritural pela posse de bens materiais. Como se o consumismo pudesse resolver as frustrações e insatisfações que tiram o sentido da vida. Além disso é inegável que apenas uma pequena parcela da população é contemplada com os benefícios dos avanços tecnológicos. Essa injustiça faz com que a cidadania seja um privilégio das classes mais abastadas, como se existissem cidadãos de primeira e segunda categorias, sobrando para estes apenas as migalhas.

Os homens estão sobretudo doentes da alma e seguem afastando-se uns dos outros, propiciando assim a vida em casulos, decretando a falência de uma saudável vida em sociedade. A total falta de segurança pública fez com que cada um tratasse de se proteger ao seu modo, tornando suas ações em atos isolados e alheios à complexidade de questões mais profundas, como as de caráter social, por exemplo. Na verdade, o homem partiu para o isolamento e padece hoje de uma vida hermética, sem horizontes, destinado à solidão que fere e humilha.

A máxima "cada um cuide de si" nunca pareceu tão em voga. Cada um que resolva seus próprios dilemas e o mundo que se dane. Esse egoísmo é nocivo à sociedade e a cada indivíduo em particular. Leva à solidão e ao ostracismo. Não existe nesse caso o meio termo. O homem de repente viu-se acuado pelo "mundo cão" e resolveu isolar-se, fugir do que lhe é hostil. As relações humanas estão por demais conturbadas. Precisa-se urgentemente criar mecanismos que dêem ao homem condições de olhar o próximo, não como um inimigo em potencial, mas sobretudo alguém tal como ele, carente de respostas que o tirem da solidão em que vive e faça ressurgir em cada um a confiança e a volta do prazer pela vida. É preciso resgatar a solidariedade e a fraternidade para amenizar a frieza e a desconfiança que governam os relacionamentos interpessoais e que contribuem para a crescente solidão da vida moderna.

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