Clarissa

Luiz Maia

Abri a porta do seu quarto, despretensiosamente, e logo vi Clarissa deitada sobre o sofá azul. Já era pleno cair da tarde, quando nossos corpos são invadidos pela penumbra da saudade, em cansados apelos à nossa alma. Do abajur lilás saía uma luz difusa em direção àquele corpo de menina-moça, donde afloravam saúde e encantamento, e estavam à mostra suas coxas bronzeadas e uma acentuada sensualidade.

Mais que dormindo, parecia anestesiada. Sobre a cama coberta com um fino lençol de seda, havia um albúm de recordações. Bem ao lado da mesinha de cabeceira, escapara uma carta de amor aberta, como se fora lida recentemente, com fotes apelos eróticos, talvez, quem sabe, nunca respondidos ou satisfeitos. Aquele ambiente cheirava à saudade. A partir dali passara a conhecê-la mais intimamente.

Algo parecia não estar bem. Havia um quê de mistério naquele seu prolongado sono, como uma fuga à realidade que não quisesse admitir. Tudo em minha mente girava em torno de hipóteses. Mas a intuição parecia me mostrar o caminho para algo difícil na vida dela. De repente ela acorda e, com um olhar que não conhecia, veio correndo em minha direção. Parecia assustada. Abraçou-me e passou a chorar. Apertei-a contra o meu peito, deixando-a desabafar. Passados alguns minutos, acariciou meus cabelos, segurou o meu rosto desfilando seus frágeis e ressentidos sentimentos.

Era a dor da perda. Seu namorado partira sem se despedir e sem ao menos dizer o porquê daquela súbita viagem. E o pior: pedira para que o esquecesse. Despedaçara seu coração. Agora se encontrava inconsolável e à mercê do tempo. Nem de longe refletia a pessoa alegre e extrovertida que encantava os que a conheciam. Clarissa tinha o riso fácil e fazia amigos com extrema simplicidade. O prazer que sentia pela vida, em viver cada momento do dia, fazia parte de sua personalidade. O seu riso não era o da alienação mas a pura constatação do seu fascínio pelas coisas simples que a rodeavam. Riso aberto e autêntico que contagiava. Mas a verdade era que eu estava ali, diante dela, sem saber o que dizer. Senti-me paralisado em meio a sua solidão.

Conheci Clarissa no I Congresso Brasileiro de Fisioterapia, realizado em 1980, no Centro de Convenções de Pernambuco. Tornamo-nos amigos. Para mim, que desde 1973 ficara dependente de cuidados de uma fisioterapeuta, nada melhor do que ter uma físio, sobretudo amiga, para nos orientar. Freqüentemente saíamos juntos a teatros, encontros e, vez ou outra, lá estava eu passando horas agradáveis em seu apartamento à beira-mar de Boa Viagem. Éramos confundidos como sendo namorados, o que a fazia emitir sonoras gargalhadas. Quando isso acontecia, ela sempre costumava dizer que eu era o "amigo mais metido e charmoso que conhecera um dia". Bom era ouvir isso, principalmente partindo de uma pessoa tão autêntica e espontânea quanto Clarissa. Por tudo isso sempre a admirei e lhe quero muito bem. E foi num desses dias, em seu apartamento, que a vi assim: triste e cheia de dúvidas...

Passados exatos três meses, recebo um telefonema de Clarissa me convidando para um jantar, quando me faria uma séria revelação. Qual a surpresa que estaria reservada para mim? Na hora marcada ela chegou e fomos ao restaurante, desses em que as pessoas aproveitam mais a conversa que o prato servido. Notei a falta do riso em seus lábios durante o percurso. Parecia-me estar encontrando uma relativa dificuldade ao tentar expressar algo que não gostaria. Após saborear uns goles de refrigerante, olhou para mim, aparentando certa frieza e disse: "Estamos nos vendo hoje, talvez, pela última vez. Vou, neste domingo, residir em definitivo no Canadá". Calado estava, calado fiquei. Ela continuou: "Cansei de ser a boazinha, a menina risonha e alegre que parecia não ter problemas. Aqui não passarei disso. Preciso conhecer gente nova, diferente, que me entenda e veja que também tenho minhas carências, que sofro e necessito de compreensâo e carinho como todo mundo". Após o desabafo, compreensível até demais, tomou minhas mãos e começou a chorar baixinho. Mais uma vez me via diante dela sem forças nem argumentos para me expressar. Na verdade não havia mais nada a ser dito. Ficara reservado para mim, apenas e tão-somente, ouvi-la e buscar na solidariedade de uma lágrima a única resposta plausível para aquele sufocante momento. Daquele dia em diante nunca mais tive notícias suas. Sei que para sempre Clarissa continuará a povoar minha lembrança como aquela que se quedou diante do primeiro desafio amoroso de sua vida.

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