Crespúsculo da vida

Luiz Maia

Dia desses, ao ler mais uma matéria sobre o terceiro milênio, fui tomado por uma sensação estranha. Podia ser uma indisposição passageira, não fosse a súbita necessidade de refletir sobre o que eu já havia vivido e sobre o tempo que ainda me resta. Num primeiro momento, as lágrimas corriam fáceis pelo meu rosto. Como estancar as lágrimas diante das emoções causadas pelo sentimento iminente de perda? Em outras palavras, era como se eu estivesse me despedindo desta vida, das pessoas, do mundo.

Já tendo passado dos cinqüenta, é natural que o meu tempo de vida aqui comece a declinar. Isso é o normal, a lei da natureza. Entretanto, nunca em toda minha vida me senti tão bem, disposto, alegre, feliz. Felicidade que é reconhecida por quem me conhece. Ademais, nunca passei por um período de plena inspiração para criar, para escrever crônicas que um dia tornar-se-ão livro. Inspiração capaz de deixar qualquer adolescente morrendo de inveja! E eu me pergunto: "por que logo agora, quando me sinto útil e de bem com a vida, pressinto os sinais crepusculares da vida a me chamarem, condenando-me a me afastar dos amigos e da família?

É compreeensível que assim me sinta, pois nunca amei tanto a vida como agora e dela jamais abriria mão se detivesse o poder de controlar os efeitos da velhice. Ah, como eu amo a vida! Como me dói saber que um dia irei deixar tudo isso. Para que se avalie o quanto que me custa dizer isso, eu seria incapaz de expressar tal sentimento através da fala, me faltaria a voz. Mas o faço agora amparado pelo recurso do dedilhar sereno e manso das teclas de um computador, já molhadas pelas lágrimas que não posso conter.

Essa não é uma crônica triste, muito mais uma exaltação à vida, a tudo de belo e de maravilhoso que exixte. São tantas as razões que a vida nos dá para sermos felizes e apreciarmos cada minuto da existência. Pena que só viemos a perceber isso quando já somos adultos, em pleno preparativo para a "viagem de volta". E com o pensamento voltado àquelas pessoas que vão ficar, chego a me perguntar: "o que será de mim longe de tudo? O que estará reservado para mim, se já não creio em nada, se nada terá o poder de substituir ou de preencher a sua ausência? O que será da minha amada sem ouvir os meus galanteios, sem a minha presença amiga?" Eu sei muito bem que não suportaria estar longe dela nem mesmo morto...

E num desfilar de fantasias, minha mente alça vôo no delírio de quem sonha. Busco reinventar a vida que se vai e que ainda não vivi. Preciso me descobrir feliz nadando nos mares que nunca mergulhei. Viajar por estradas de chão batido à procura da sombra das jaqueiras. Comer frutos tirados do pé. Ser pai de um filho com Ana. Mateus ou Ana Carolina seria o seu nome. Assistir a mais um filme de Carlitos. Comer bastante chocolate. Andar de ônibus num domingo à tarde. Chamar dona Olga, carinhosamente, de minha sogra. Abraçar mais meus irmãos. Beijar minha mãe sem olhar de lado. Declarar amor à humanidade. Fazer uma poesia para quem amo tanto. Despedir-me dos vizinhos que nem conheço. Pedir desculpas a quem de direito ou não. Tomar caldo de cana com pão doce. Comer tapioca quentinha com café fervendo. Plantar mais roseiras no jardim. Dar pão a quem tem fome. Pintar um quadro a óleo com cores vivas. Pedir perdão a todos que um dia desgostei. Pedir a Deus que me conceda mais uns vinte anos ao lado da mulher amada. E então, só então, me sentiria apto a partir para onde quisesse me levar o nosso bom Deus. Estaria em paz com Deus e com o mundo. Satisfeito em meus desejos e em minhas necessidades. Teria feito aqui o básico que um ser humano almeja. Interessante perceber que é justamente nas coisas mais simples onde reside o que de mais saboroso e significativo buscamos encontrar na vida. Como poderia ser mais fácil viver se tivéssemos a consciência e a tranqüilidade em desfrutar das pequenas coisas que tornam nossa vida mais feliz. No crepúsculo da vida, estaríamos plenos, sem nos preocuparmos com o que não nos foi permitido viver.

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