Cruel legado

Luiz Maia

No início do século XXI, podemos notar no jovem a desesperança e o desencanto. Por trás de cada olhar ficam evidentes a dúvida, o medo, a insegurança e a impotência que parecem fazê-lo reféns de um mundo obscuro e hostil às suas pretensões.

O que será que fizeram com este país, chamado Brasil, de dimensões continentais mas que tem um povo que vive sem terra para plantar, sem casa para morar, sem trabalho para o seu sustento e, o pior, sem ter sequer esperança no amanhã? Dia desses ao sentar à mesa para tomar um simples cafezinho, fui surpreendido pela indagação de um sobrinho: "Tio, na sua mocidade era difícil se conseguir um emprego, havia tanta corrupção e as suas dificuldades eram iguais às nossas?" Engoli em seco e fiquei pensando. A primeira reação minha foi a de me sentir um dos responsáveis pelo seu desencanto. Os meus inúmeros momentos de alienação diante de eventuais discussões de temas sérios estariam agora a me cobrar, pondo-me contra a parede.

Se formos comparar os dados do Censo de 1970 com o de 2000, chegaremos a um retrato da nossa realidade. Só para falar no item população campo X cidade, iremos descobrir que o Brasil não é nem nunca foi um pais de tradição agrícola. Para que tenhamos uma idéia, em 1970 a população brasileira estava assim distribuída: 70% concentrada no campo enquanto 30%, nas capitais! Hoje, trinta anos após, a situação é a seguinte: 18% concentrada no campo enquanto 82%, nas capitais! Eis uma razão da favelização das metrópoles e da cruel concentração de terras nas mãos de uns poucos.

São muitas as mazelas que têm infelicitado esta nação. A concentração de renda não é menos desumana que a concentração de terras. Estão intrinsicamente ligadas. As políticas de Reforma Agrária que foram desenvolvidas ao longo de nossa história nunca passaram de meros esboços de "boas intenções". Tudo feito até hoje não passou de simples assentamentos ou de tímidas ações isoladas para efeito de mídia, como forma de se enganar a população com falsas propagandas. A verdade histórica está bem diante de nossa cara e o governo jamais poderá desmentir dados do IBGE.

Comparando-se a população brasileira em 1970, que era de apenas 90 milhões de habitantes, e a de hoje que já chega à casa dos 160 milhões, veremos um acréscimo de cerca de 90% na densidade demográfica do país. O pior nisso tudo é que, enquanto a população crescia, aumentava também a migração do campo para as cidades, fazendo nascer bolsões de miséria. Locais geralmente tomados pela violência, desemprego, fome e vícios, ainda que abriguem muitas pessoas de bem.

Às perguntas do meu sobrinho eu poderia resumidamente dizer que, em um país onde as políticas sociais são levadas em consideração - ao contrário, aqui a prioridade sempre foi manter as contas com o FMI na mais perfeita ordem -, onde há capacitação para um bom emprego, à base de políticas que dêem prioridade à busca das potencialidades naturais do país, em sintonia com a implementação de novas indústrias, fomentando o potencial turístico de cada região, além de uma maior incrementação na área de serviços, o cenário é outro. Enfim, se tivéssemos a coragem usar a nossa soberania para cuidar das coisas como deveriam, possivelmente esse país e seu povo estariam dando lições de como deve ser uma grande nação, construída à base de um povo forte, soberano e sadio. Mas isso só acontece quando vivemos num país onde tudo é permeado pela democracia, onde a democracia é exercida em mão dupla. Infelizmente, ainda temos muito chão a caminhar e tudo faz crer que todos esses sonhos não passam de velhos embriões.

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