Desapego

Luiz Maia

>> Às vezes a grande aprendizagem está em deixar ir quando desejamos que fique ao nosso lado; ou melhor, aceitar que não somos o escolhido para estar junto à pessoa amada <<


É fácil observarmos relações exaurindo-se a despeito de uma das partes lutar para prolongar a união. Um possível desgaste numa velha convivência tem levado muitos casamentos ao seu final. É grande o número de pessoas a sofrer a dor da perda, quando um dos lados não admite o fim de caso. Certamente iremos encontrar jovens casais de namorados, que mal iniciaram uma convivência a dois de direito, já amargando a dolorosa experiência de se verem afastados quando tudo parecia ir às mil maravilhas.


Na visão dos mais céticos, as relações humanas tendem sempre a naufragar, haja vista todo ser humano ser incapaz e intolerante para com o próximo. Valem mais seu egoísmo e sua vaidade de ser imperfeito que o é. Entender a pessoa amada requer algum desprendimento para a completa aceitação do outro. Toda relação exige uma boa dose de tolerância e compreensão mútua. É preciso abrir mão de certos valores ou desejos para que se avance na conquista diária do amor.


Quando uma relação envereda pelo caminho da unilateralidade, em que apenas uma das partes ainda esboça um deliberado amor pelo outro, a união começa a emitir sinais de desgaste. A partir daí estabelece-se um clima nada agradável, onde marchas e contramarchas surgem para viabilizar a continuidade da relação. Em muitos casos nada de produtivo acontece. Está estabelecido o impasse e a ruptura se aproxima. Quem passa por essa experiência amarga, a de sentir-se de um momento para outro inteiramente só e desamparado, vivendo (ainda) a dois, não pode imaginar que está a um passo de libertar-se e de libertar o outro de um possível sentimento de posse. Apego que só viria escravizar a ambos, comprometendo assim o próprio amor que um dia os uniu e que foi importante na história de suas vidas.


Às vezes, em nome da própria dignidade que rege a relação, creio que se faz necessário abrir mão daquilo que se ama tanto e partir para a reconstrução de uma vida nova. Certamente essas decisões vêm impregnadas de emoção, ressentimentos e muita dor. Mas são indispensáveis. Servem-nos de valiosa experiência que nos ajudarão na escolha de novos caminhos. Possibilita-nos a oxigenação de nossas artérias e de nossas mentes. O sentimento de desapego é algo raro na cultura ocidental. Muito aplicado na cultura oriental, tal sentimento favorece as relações humanas. Às vezes a grande aprendizagem está em deixar ir quando desejamos que fique ao nosso lado; ou melhor, aceitar que não somos o escolhido para estar junto à pessoa amada.

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