Despedidas

Luiz Maia

Terríveis e dolorosas são as despedidas. Quem já não esteve diante desse instante limite? É a dor que alguém sente ao afastar-se do ente querido, do amigo, da pessoa amada. É o exato momento em que a consciência teme pelo desconhecido, pelo que virá e como será sem aquela pessoa ao seu lado. É o momento em que as lágrimas rolam fáceis até no mais frio dos homens, na mais bela das mulheres, que nem se importam em retocar a maquiagem.

Despedir-se tem um quê de adeus. E adeus tem um pouco de não mais ver. E esse não mais ver é que deixa a todos tristes, atônitos e inconsoláveis. Despedir-se é ter que arrancar um pouco de si e entregar ao outro que parte. É receber de quem parte um pouco de si também. Despedidas são traumáticas e comoventes. É justo nas despedidas onde os valores dos que ficam e dos que partem são ressaltados e duplamente valorizados. Até a generosidade fica mais aflorada no coração. Há uma certa piedade nos olhos de quem está a se despedir, como a se arrepender do porquê não fora mais benevolente para com o outro. Há nas despedidas espaço para gestos e sentimentos de grandeza, como o pedido de perdão ao outro por ter sido pouco compreensivo, mas que só agora, nesse momento limite, viera enxergar tão cristalina verdade. É propício, também, para os jovens tímidos e envergonhados declararem seu amor, já que agora nada mais poderia inibi-los. Os amores forjados nas despedidas são belos porquanto platônicos e afeitos à eternidade.

Na despedida também há o encontro. O encontro com aquele que espera, que não arreda o pé, com aquele que há pouco despedira-se de muitos mas que, em contrapartida, tem no abraço e no ombro amigo de quem o espera a compensação por tamanho desgaste emocional da partida. É no encontro motivado pela despedida que às vezes o homem passa a se sentir, para sempre, dividido. Dividido entre o que ficou e o que o recebeu. Entre a cidade que o acolheu e a cidade que o recebe de volta. É a divisão causada pela real impossibilidade de compatibilização entre estar num lugar e no outro ao mesmo tempo. Daí nasce o homem totalmente dividido entre um lugar e outro, entre um povo e outro, entre um amor e outro. E a divisão maior e mais contundente passa a existir dentro dele, sem que jamais possa ser sanada, pois definitiva mesmo é a sua eterna insatisfação. A tristeza de quem vê alguém querido partir difere da alegria daquele que feliz o espera. São as ironias das despedidas. Aquele que espera é parte integrante da engrenagem da despedida.

O local da despedida funciona como um "muro das lamentações". Por mais que a pessoa queira suavizar a despedida, até mesmo fingindo "estar tudo bem", pouco ou quase nada irá mudar no seu interior nem nos daqueles que estejam à sua volta. Simular uma felicidade esbarra no primeiro abraço, no último aperto de mão. E a realidade da despedida mais uma vez levará às lágrimas. Êta momento ingrato que já causou arrepios e até dor de barriga. Aquele frio fino que começa a deslizar pela coluna cervical dá o ar da sua graça desde o ligar das turbinas dos aviões até o escorrer da última lágrima. Onde há o riso e o choro juntos, é porque há uma despedida.

ooo

Crônicas Página Principal