Diferenças radicais

Luiz Maia

Ser diferente por opção pode até ser algo interessante. Agora, tornar-se alguém diferente, para sempre, de forma acidental, é coisa que ninguém pensa nem cogita. E foi justamente isso o que aconteceu comigo.

Numa dessa frias e indiferentes madrugadas do Recife, fui abruptamente atingido por um tiro na cabeça. Entre a vida e a morte, fui levado ao Prontoneuro do Hospital Português, onde me submeti a duas cirurgias de emergência. Escapei fedendo de morrer. Driblei a morte mas não a cadeira de rodas. Hoje, passados vinte e sete anos do acidente, posso afirmar que sou um paraplégico privilegiado, pois embora dependente de uma cadeira de rodas e de mãos amigas para me ajudarem, levo uma vida satisfatória. Sou filho de uma família ajustada, contando com o carinho e os cuidados dos que me rodeiam. Tenho ainda alguns amigos e uma namorada linda, a quem amo muito e que mudou a minha vida por completo, para melhor.

A partir do acidente mergulhei num mundo que não conhecia. Ignorava por completo o universo das pessoas portadoras de deficiências. Foi após tomar consciência de que jamais voltaria a andar que comecei a perceber que esse contigente enorme de pessoas diferentes, de seres portadores das mais variadas deficiências, parece viver à sombra da vida, algumas nunca tendo saído de suas casas. Quando andava e levava uma vida comum, não me lembro de ter visto pessoas deficientes pelas ruas. Hoje sei perfeitamente o porquê disso. Existem barreiras enormes, quase que intransponíveis, que fazem com que a maioria esmagadora dessas pessoas sequer saia de suas casas.

A questão da acessibilidade parece estar ainda engatinhando e muito aquém das reais necessidades. As barreiras arquitetônicas estão em todos os lugares fazendo com que muitos desistam de tentar sair. Os meios de transporte simplesmente inexistem. Emprego para deficientes é coisa rara e fica reduzido a apenas algumas pessoas. Para muitos, só existem as barreiras às suas pretensões. O preconceito é outro obstáculo imenso. É uma praga que ainda traz muita infelicidade, sendo em alguns casos fator preponderante para eliminação de qualquer possibilidade que alguém venha a vislumbrar.

Com essa minha experiência conheci alguns deficientes visuais que enxergam muito além que os ditos normais. Do mesmo modo, mantive contato com paraplégicos, hemiplégicos e tetraplégicos que são pessoas fantásticas e que desempenham suas funções com extrema competência. Vi em muitos surdos-mudos uma aflorada sensibilidade e um grande poder de concentração, que os tornam quase que imbatíveis na arte que executam, sendo todos perfeitos seres diferentes. Há o caso de um portador de PC (Paralisia Cerebral) de 36 anos que veio a ter seu primeiro amigo aos 21. Dá para perceber o quanto se pode sofrer pela exclusão social. Embora seja uma pessoa inteligente, capaz, dinâmica e que busca na superação do dia-a-dia se mostrar valente e sempre atuante, podendo ser chamado de um vencedor, não tem sido fácil buscar sua inserção real na sociedade. Todas essas pessoas são diferentes, especiais, com lindas histórias de vida para partilhar com quem, infelizmente, nem sabe ao certo de suas existências.

Essas pessoas, assim como eu, são especiais e diferentes em essência. O portador de deficiência é um ser humano como outro qualquer, que tem sentimentos, ama, odeia, chora e ri como todos enfim. As pessoas deficientes não são seres assexuados, como os desinformados chegam a pensar. Têm os mesmos desejos, necessidades e libido que qualquer um dito normal tem e sente. Nós, seres diferentes porquanto deficientes, somos impregnados de uma carência a toda prova. Talvez pela necessidade que temos em deixar fluir o nosso instinto, as emoções que vivem represadas pela falta de alguém que as recebam e que as entendam. Ou por não ter quem nos ouça e compreenda. Queremos o respeito. Sermos reconhecidos como pessoas diferentes, sim, mas com o mesmo grau de necessidade e de expectativa que qualquer um carrega consigo. A pessoa deficiente é alguém potencialmente eficiente. Sem a menor sombra de dúvidas. É só cuidar dela com respeito, com dignidade e com o amor de que tanto necessita e que faz por merecer.

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