Do abandono à certeza de amar outra vez

Luiz Maia

O corpo daquele homem permanece inerte. Sua mente guarda apenas lembranças. Seus olhos estão cerrados a ignorar os apelos da vida. Como vida se já não tem ao seu lado a mulher querida que tanto ama ou que tanto amou? Se tudo agora se resume em lembranças, como obter a paz perdida que nele parecia fazer eterna morada? Onde arranjar forças para não perder a vontade pela vida, pelo novo caminhar, pelas veredas que se apresentam à sua frente, por saber, num rápido momento de lucidez, ser esta a única forma de sobreviver ao seu dorido existir?

A dor do abandono, se não a pior, é das mais destruidoras que um homem pode sentir. De uma só vez vê seu pequeno mundo desabar. E ao desmoronarem tantos sonhos, tanta luta desenvolvida em comum, a vontade que dá é dormir e não mais acordar.

Mas a vida clama, a esperança o chama e faz com que vislumbre a possibilidade de uma nova mulher em sua vida. A companheira que venha restaurar a paz e a alegria de que tanto o seu corpo e a sua alma necessitam para seguir adiante e redescobrir a mansidão de tantas tardes perdidas, no ombro amigo da mulher querida.

E com a chegada do sol em sua vida, ele busca, placidamente, o esquecimento de vozes que o atormentam, dando mostras de seu desprezo àquela alma que um dia sufocou e algemou seus suspiros e calou sua alegria de criança. Já é hora de agradecer à sua amada pela felicidade que agiganta o seu ser e lhe dá liberdade.

A violência do abandono que leva à depressão é a mesma que pode conduzir à plena liberdade. Ainda que saibamos que jamais seremos libertos, a não ser do apego a valores que não mais interessam. Precisamos estar sempre alertas para asfixiarmos a alma pequena que teima e resiste em nos fazer morada, trazendo a angústia, que nos tolhe e nos faz menores ainda. Assim que vencermos este obstáculo, estaremos abertos à vida e a tudo de maravilhoso que ela nos proporciona. Esse crédito que damos à vida é o mesmo que ela sempre nos deu e que às vezes o ignoramos.

E da certeza do brilhar do sol mais uma vez em sua vida, ele parte para exaltar e contemplar a mulher amada. Razão maior da paz que começa a sorver, como criança que se contenta e se delicia com a pipoca ou em manusear o seu primeiro carrinho à pilha. Agora nele tudo é vida. Sua alma se reduz diante da grandeza da mulher amada. Nela estão até mesmo despertos o prazer e o encantamento nunca antes sentidos. Há todo um encantamento pelo preparar de noites inteiras de amor. Dos mais insaciáveis e incansáveis que repudiam a mentira e negam a hipocrisia. É amor que brota no coração daqueles que se sentem maduros o suficiente para ignorar crises existenciais, pois têm na certeza do amor de um pelo outro a saída para tudo que possa se contrapor a esse sentimento maior que engrandece e enobrece o viver.

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