É claro, Ana Emília...

Luiz Maia

É claro, Ana Emilia, que eu gostaria muito de poder falar da sua beleza de menina, do seu encanto de mulher. Mas é que nesse mundo tem muita gente chorando; mulheres esquálidas e feias, gente sofrendo torturas e precisando de justiça. É preciso estar ao lado delas agora.

É claro, Ana Emilia, que eu gostaria muito de poder falar do seu respeito ao ser humano, do seu senso de responsabilidade. Mas é que nesse mundo tem muita gente gritando em desespero e o eco de seus gritos parece jamais encontrar respostas. E é preciso estar sempre a ouvi-las.

É claro, Ana Emilia, que eu gostaria muito de poder falar do seu sorriso de criança, do seu jeito manso e silencioso de ser. Mas há muita maldade em muitos homens torpes, que vivem maquinando na calada da noite a destruição e morte de seus semelhantes. E é preciso denunciá-los, para manter a chama da vida acesa.

É claro, Ana Emilia, que eu gostaria muito de poder falar sobre sua doce alegria, de todas as manhãs, quando se dirige, no seu carro, a caminho do seu tão prazeroso trabalho. Mas há que se pensar nos milhares de pais de família que estão de braços cruzados, sem emprego, sem horizontes e sem muita fé na vida. E é preciso lutar junto a eles, para isso mudar; e, assim, todos possam ter o sagrado direito ao trabalho.

É claro, Ana Emilia, que eu gostaria muito de poder falar do seu lado lúdico, do seu sorriso maroto e da sua tamanha alegria de viver. Mas é que tem muitas pessoas a sofrer, na vida, toda sorte de injustiças, que sofrem humilhações e são excluídas. E é preciso atenuar tamanha dor.

É claro, Ana Emilia, que eu gostaria muito de poder falar da sua conduta irrepreensível diante da vida, da sua firmeza de caráter e da sua inabalável crença em Deus. Mas existem muitas pessoas comprometidas com a devassidão, a corrupção; existem milhares e milhares de homens maus que se deixam ser levados pela fraqueza de caráter e estão cada vez mais distantes de Deus. E é preciso fazer algo para conter tamanho absurdo, tamanha discrepância que aviltam nossos dias, o nosso modo de ser.

É claro, Ana Emilia, que eu gostaria muito de poder falar desse imenso amor meu por você, dessa maneira bonita com que aprendi a gostar de você, a valorizá-la e a lhe querer tanto bem. Mas é que tenho visto tanto desamor, tantas pessoas, mais e mais, carecendo de uma palavra amiga, vivendo de amores frustrados e quase não tendo ânimo para continuar a vida. Ainda bem que temos tempo, pois essas pessoas precisam e muito de nós dois. Há que se ter tempo para amenizar a dor alheia. E mesmo que não venhamos nunca suprir suas necessidades, haverá sempre, dentro de nós, a certeza de termos sido solidários no tempo certo. E mesmo que por eles não sejamos reconhecidos, e por eles até esquecidos, cabe-nos a certeza do dever cumprido, e de que Deus estará com todos e conosco também!

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