Entre o sonho e os limites da realidade

Luiz Maia

Na minha cabeça tenho coisas bem melhores que aquilo que lhes posso dar. Essa constatação define o eterno descompasso entre o que sou e o que gostaria de ser. Ou entre o que dou e o que tanto gostaria de dar. Dar-me mais como pessoa. Não trato de bens materiais. Falo de quem entende a complexidade da vida, mas que ao mesmo tempo não se conforma em ser tão pouco. É a consciência de que sou limitado e do quanto isso me faz sofrer.

Na minha cabeça tenho coisas bem melhores que aquilo que lhes posso dar. Esse sentimento dá-me a certeza que serei um eterno contestador dos limites impostos, que me roubam o sonho e me remetem à fria realidade. Saber que, por mais que eu venha a viver, jamais poderei ser eu em essência é algo simplesmente desolador. É ter que representar mais que aquilo necessário. É ter a consciência de que tenho de me virar em dois quando nem mesmo posso ser um. Essa luta é desigual e sempre sairei perdedor.

Se me perguntassem com quem ficaria "entre a boa obra ou o destino humano", não teria nenhuma dúvida em afirmar: com o destino humano. A boa obra não passa de teorias em filigranas que se encerram ao final de cada ato. Por mais bela em sua feitura, jamais sairá do raio do sonho e do devaneio. Já o destino humano nos remete a construir o nosso próprio caminho. Cabe-nos viver o eterno enquanto mortais que somos. Mas é preciso coragem para vivermos. Aos solavancos, os homens seguem construindo a história, quase sempre sem o colorido necessário, mas à base de muito suor e lágrima, sob dores e humilhações que fazem com que muitos tentem parar. É preciso coragem ainda maior para extrairmos lá de nossas entranhas as experiências de vida acumuladas e perceber o quanto somos pequenos e o quanto que prevalece a incompletude humana.

Na minha cabeça tenho coisas bem melhores que aquilo que lhes posso dar. E essa certeza em minha vida vai aos poucos minando uma possível resistência ao imponderável. Não há que melhorar aquilo que jamais deverá ou poderá ser melhorado. E aí eu começo a pensar que sou fruto de uma simples "boa obra". Que melhor seria ser página virada de um folhetim qualquer que não réplica de uma "boa obra". Onde fica essa minha vontade exacerbada em ser alguém melhor do que sou se não puder mudar a realidade? Como passo a ver a vida sem o sonho de me tornar melhor, sempre melhor? Se já não há sonhos, que importa a vida, que vale viver sem a menor chance de fazer ver ao mundo que sou bem melhor que isso que hoje sou?

Não quero que pensem que carrego comigo apenas "boas obras", simples manifestações no peito de boa vontade ou teorias mortas. De que me valeria ser arauto das boas intenções se não me fossem dadas condições de fazer ver que todo sonho é válido e que devemos sempre cultuá-los, como uma imperiosa necessidade de mascarar o que somos e injetar em nós a doce ilusão de que o amanhã nos irá sorrir e nos fazer melhores?

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