Hoje...

Luiz Maia

Hoje contemplo a fragilidade da vida no admirável silêncio dos astros. Na mansidão da noite que chega e que traz a saudade dela. Diante do pôr-do-sol, só cansaços existem em mim. Enquanto a vida diminui e a natureza floresce, cresce em mim a vontade de vê-la. Está evidente em minha alma a infinita necessidade dela.

Hoje sou aquele que murmura seu nome baixinho, em sonoros agradecimentos a Deus pelo futuro, de há muito ansiado, que chegou. Estou e sou um homem livre. Vivo a liberdade daqueles que se sentem presos a uma paixão das mais desenfreadas, interessantes e desejadas, das mais puras e santas de que alguém já ouviu falar.

Hoje começo a sorver as delícias do imponderável diante da inquietude de sua alma que aspira à minha presença, mais e mais, em sua vida. Já não ando só como os andarilhos de um tempo que se foi. Ao seu lado me aquieto e me acalmo como se fora um bálsamo que aplaca a mais incômoda das dores. Sua ação em minha vida tem o poder dos melhores antidistônicos e analgésicos, só conferidos aos milagres das deusas.

Hoje contemplo a fortaleza dos sonhos que viraram realidade. Que afastaram a crueza da vida e as intempéries do tempo, transformando vidas amorfas em dinâmicas, em plena consonância com os mais belos sentimentos de grandeza e gratidão. Pois o amor, que hoje habita em mim, extrapola meus limites e se espraia pelo mundo a dizer que a vida é bela e que viver é preciso.

Hoje já não sinto mais cansaços, embora viva em meio deles. Tranqüiliza-me a consciência daquilo que existe gravado no meu coração. E quando o Altíssimo o ler, certamente não se decepcionará. Se bem mais eu poderia ter feito, resta-me o consolo das vezes em que me vi sem os instrumentos à mão para fazê-lo.

Hoje divago a pensar nas coisas que mais queria. Às vezes imagino que ao seu lado apenas sobrevivo, quando o mais desejado seria viver ao lado dela, literalmente falando. Isso me remete a caminhar pelos jardins floridos, buscando semelhanças suas. E, em cada flor que vejo, sinto o sorriso dela. E, as fragrâncias nada diferem do seu cheiro natural. É a sublime imaginação do encontro do real com o devaneio.

Hoje já não sinto pavor das noites sombrias e tenebrosas que pareciam nunca ter fim. Já vislumbro no horizonte o clarão da aurora. É a esperança que chega de forma sutil a inebriar. A explosão do mais puro contentamento gera em mim, tão somente em mim, motivos mil para tentar ser uma pessoa boa, um ser humano melhor, disposto a resgatar o tempo perdido e me tornar a pessoa por ela tão almejada.

Hoje meu coração só pensa nela. O meu viver resume-se em apenas fazer as coisas de que ela tanto gosta e que mais quer. Pois ela é fruto de mil sonhos generosos acalentados durante toda uma vida. Resumo minha capacidade de amar num simples grito de amor á liberdade que tanto busquei sem saber que se encontrava nela.

Hoje vivo a plena liberdade, consciente que sou cativo dela. A plácida quietude de seu olhar transforma minha eventual ira num remanso de paz. A esperança é quem revitaliza o sonho e o faz tornar-se realidade. Minhas manhãs são invadidas por sua presença, em forma de sutis lembranças que jamais o tempo apagará.

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