Incoerências humanas

Luiz Maia

Acordo em meio à saudade daqueles que partiram e custarão a retornar. É um acordar dorido, cansado. Seria melhor não mais acordar. Pareço viver os limites dos impulsos viscerais da incoerência humana. De tão feliz que sou, já não suporto mais a saudade dela. Cada ausência sua é reclamada de imediato por minha alma que chora infantilmente. Por que choras, saudade? Por que eu, logo eu, a chorar tamanho pranto por quem sempre comigo está? Ela vive em mim porquanto sua ausência e presença se misturam e me acalmam.

De repente imagino seu corpo cheio de saudades minhas, mas também repleto de esperança nos dias que virão. Seu sorriso expressa o que de mais lindo e puro existe no seu modo infantil de ser, causando-me a feliz impressão de que sou seu referencial. Seu jeito anestesia meus sentidos. Por instantes me vejo sendo aliciado a seguir por seu único e admirável caminho. Já não me cabem mais escolhas. Tais sensações fortalecem em mim a emoção involuntária que saboreia a inconseqüência de meus sentimentos desenfreados, quase sempre eivados de irresponsabilidade à luz da verdade.

Mas o que fazer quando não se tem a sobriedade das mentes lúcidas e enveredamos por caminhos da saudade atroz, sem que nada significante a justifique? Não me furto em expressar o quanto a amo, mas peco ao omitir medos e angústias que teimam em viver como máscaras estampadas à face. Preciso desnudar tal coisa à medida que me sinta mais perto dela, inebriado pelo seu poder de sedução. Seu fascínio é algo explicável para qualquer poeta que tentar ler meu coração. No entanto, algo inexprimível para se pôr no papel. Impossível mensurar algo que transcende a esfera do raciocínio lógico e penetra com esmero na razão do equilíbrio dos astros.

Entre a manhã que se inicia e a noite que virá, há um quê de mistério que semeia em mim instantes de sonhos que revelam sua imagem refletida. Não há o que temer quando se sabe que dos grandes sonhos nasceram as maiores e sólidas certezas. Preciso deixar de ser injusto para com as plácidas bênçãos de Deus que sobre nós são derramadas diariamente. É preciso interceptar as incoerências que tentam povoar nossas mentes sem que exista a mínima razão para tal.

Agora preciso amparar-me nas suas aliciantes cartas de amor. Nada melhor que me sentir convencido das maravilhas que escreve, que me confere e que me diz ser. Já não estou mais tenso. Minha ternura busca encontrar em sua perene quietude um cais acolhedor. O que seria de mim, nas minhas inúmeras inquietações, não fosse a paz dos amantes que mora em sua alma e que fica explícita em seus lábios ao me sorrir?

Essas minhas eventuais incoerências logo naufragam diante do seu extremado amor. Pobres delírios meus que sucumbem ante um simples gesto seu, no afã de responder aos carinhos que lhe faço. O momento presente me remete a pensar na sua volta, e assim demonstrar-lhe toda minha ansiedade em tocá-la e acariciá-la no mais longo e necessitado de todos os abraços. Preciso vê-la chegando. Irei ao seu encontro sorrindo, sem esquecer um poema e a prece salvadora. É certo que ainda há em meus olhos lágrimas da saudade dela. Agora quero entregar-lhe uma rosa, símbolo do meu amor por ela.

ooo

Crônicas Página Principal