Manhãs de domingo

Luiz Maia

A simplicidade das horas consome os dias das semanas à espera das alegres e amenas manhãs de domingo. Há algo de muito especial que se instala em nossas almas, nas plácidas manhãs desse primeiro dia da semana. Existe um cheiro no ar em nada parecido com aquele dos dias comuns, mas de difícil explicação por não existir como mensurar o grau da fragrância que nos deixa maravilhados, em permanente expectativa de excelentes momentos que acontecerão no transcorrer desse dia.

Viajo nessas manhãs, porquanto manhãs de domingo. A rosa está à sua espera porque hoje é domingo. Tal como a rosa, outras flores estão a causar alegrias, porque hoje é mais uma abençoada manhã de domingo. O azul do céu chega a aumentar de intensidade e o sol brilha mais forte a clarear nossas casas, dando muito mais ênfase à sombra proporcionada pelas frondosas árvores dos quintais.

Aquele jovem tímido, enfim, aproveita a serenidade desse dia e fala de amor à namorada que espera. Os corpos ficam mais propícios ao encontro e às carícias porque a aura desse dia colabora para que isso aconteça. Tantas palavras que foram ditas e que se perderam na imensidão do universo, porque não ditas nas manhãs de domingo.

Pobres, velhos e crianças mendigam às portas de bares e igrejas, à espera de sensibilizar os corações de fieis e de boêmios, que oram e bebem porque hoje é mais um daqueles tradicionais dias de domingo. Sussuros de alegria eclodem da garganta do cantor que louva ao Senhor porque vivemos uma manhã de domingo. As manhãs de domingo são como sonhos em que precisamos crer, a menos que enveredemos pelos caminhos dos desencantos e morramos sem realizá-los.

Vivamos, pois, todos juntos, as ensolaradas ou até mesmo as chuvosas manhãs de domingo, e desfrutemos do dia que o nosso Pai nos reservou para o bendito descanso. A brisa mansa rasga essas manhãs e nos remete à nostalgia das manhãs que se foram e que hoje são apenas espectros armazenados em nossas lembranças. Não há como esquecer de nossa infância, o começo de tudo, em meio às pessoas queridas, que de tão avançada idade, mais pareciam ameaçar 'partir'. De tão belas que eram essas emocionantes manhãs de domingo, que o riso e o choro sempre se davam as mãos.

Lindas são as manhãs em que a lembrança e o carinho se revelam à saudade misteriosa. Lindas são as crianças que nascem - sendo elas a aurora - em pleno respeito ao declínio dos corpos - sendo eles o próprio pôr-do-sol, como reverência à sábia mãe natureza. Lindas são todas as manhãs de domingo, onde o velho e o novo se misturam e se entrelaçam, a conferir a grandiosidade da natureza e a beleza da vida.

As manhãs de domingo são manhãs de pura cumplicidade. As pessoas se tornam até mais generosas, mais gentis e quase sempre lhes aflora o desejo de partilhar. Há aquela cumplicidade ansiada, tanto nos lábios daqueles que oram quanto naqueles que se beijam. As manhãs de domingo não exigem respostas, se bastam sem tecer a menor das perguntas. Há nessas manhãs um quê de mistério envolvido em cândidos sentimentos. Há nas manhãs de domingo a sensação de liberdade que se espalha proclamando um período de pleno consentimento. É tempo de viver a vida e aplainar os caminhos do nosso interior que nos levará à mansidão da contemplação infinda. Louvadas sejam as manhãs de domingo.

ooo

Crônicas Página Principal