Moça triste

Luiz Maia

São tantas coisas que a vida tem a nos ensinar, que só deveríamos olhá-la em forma de contemplação. Em que pese a correria da vida moderna, muita gente ainda aprecia a vida com os olhos da calma, da mansidão de quem contempla. Talvez seja a forma encontrada para contestarem a corrida louca e desatinada à vida, ao trabalho, à escola, às atividades do nosso já tão conturbado dia-a-dia.

E foi contemplando que um dia vi aquela moça. A praça parecia ser inteiramente dela. A dor e a tristeza estavam estampadas naquele rosto, quase decifrável. Seu caminhar trôpego, sem firmeza de direção, dava-nos a impressão de não a levar a lugar algum. Caminhava mansamente sem destino. Apenas exercitava o hábito voluntário de deambular. Olhando-a mais amiúde, percebia-se claramente que estava doente da alma, em profunda depressão.

Quantas pessoas estão nesse momento abraçadas a esta que é conhecida como a doença do século? São milhares mundo afora. Inúmeras são as causas que levam uma pessoa a ser acometida desse mal: insegurança no trabalho, ansiedades generalizadas, ausência de perspectivas de vida, instabilidade no casamento e relacionamento amoroso desfeito, só para citar algumas.

Aquela moça parecia estar hipnotizada, tamanho seu alheamento à realidade e dispersão ao sorriso de uma criança. Tudo indicava que seu mundo já não era esse e, vendo-a assim cada vez mais alienada, num esforço incontido, firmei a idéia de fazer-lhe algumas perguntas. Aquele não seria o momento certo. Talvez viesse a se espantar e aí o meu lado analítico iria por água abaixo. Além do mais, seria uma grande irresponsabilidade minha poder causar-lhe algum vexame. Eu não podia errar, mas precisava agir de alguma maneira já que ela pareci necessitar de ajuda. Faltava-me experiência para uma feliz abordagem. O que fazer? --- perguntava-me.

Para surpresa minha, ela veio em direção a mim. Naqueles poucos segundos que me separavam dela, pensei rápido em várias possibilidades. A oportunidade de poder ajudá-la me fascinava. O tempo passava e minha angústia aumentava. Dizer o quê? Fazer o quê? Esgotara-se o tempo e dela ouvi o seguinte: Senhor, por favor, diga-me a hora... - Claro, sim... já deu meio-dia - respondi meio sem jeito. Ela agradeceu e sentou-se ao meu lado. Aquele era o momento certo, pensei. Tomei coragem e arrisquei: - Você deve morar por perto, não? Sempre a vejo aqui. Moro sim, logo ali - respondeu. Precisa de ajuda? - falei... Não. Apenas quero reaver minha paz perdida - disse, fechando-se em copas. Ouvindo-a falar assim dava para perceber que sua aflição apenas começara. Era o retrato do desencanto e da desilusão. Sua amargura era grande tal qual sua beleza. Seu olhar aleatório buscava recuperar algo que talvez não pudesse mais. São os desencontros e descaminhos da vida que jamais um dia pensamos amargar. Eles existem e são frutos do nosso despreparo. O homem é moldado às suas conveniências e delas costuma ser escravo. O que nos parece ser um instante de paz pode ser também prenúncio de tempestade. Da calmaria à tempestade, da tempestade à calmaria, é assim que vivemos no nosso imperfeito caminhar quando não nos permitimos acatar a voz da razão.

Em muitos casos o nosso sofrer tem relação com a inconseqüência de nossos atos. A auto-suficiência e a imprevidência também costumam cobrar um alto preço às nossas ações. Nossos avós já diziam que um bom conselho e canja de galinha não fazem mal a ninguém. É certo também que fica difícil alguém dominar suas emoções em relação ao carinho dispensado ao ser amado, sendo muitas vezes surpreendido com a não contrapartida. E quando isso acontece a pessoa sente-se rejeitada, frustrada, decepcionada e não raras vezes abriga-se numa forte e devastadora depressão. A partir daí o que se segue é um período de extrema nebulosidade e muito sofrimento, tanto físico quanto moral. A pessoa perde o rumo e seu referencial de vida. A outrora alegria pela vida ganha forma de aversão, e a pessoa, absorvida por esse mal, chega a perder totalmente o gosto pela vida. E as razões encontradas pela vida até então perdem inteiramente o sentido. A moça triste da praça apenas deixava transparecer em mim a real capacidade que tem esse mal de transformar pessoas, supostamente felizes, em seres extremamente frágeis e vulneráveis à ação do tempo. Dói-me saber que existe no mundo, hoje, um considerável contingente de pessoas deprimidas. Enquanto eu pensava, a moça triste afastava-se mansamente de mim.

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