Mundo em desencanto

Luiz Maia

Existe um mundo onde pessoas lutam contra a fome, contra a injustiça e logo sucumbem. Pessoas que nascem sob o signo do abandono, que vivem desprezadas e morrem em total esquecimento. Um mundo que parece bem distante de todos nós mas que está aí, bem à nossa frente nos matando (quase) todos de vergonha, fazendo com que nossa indignação aflore e nos sintamos culpados por sermos pacatos assistentes de vidas que morrem no seu nascedouro.

Triste mundo onde muitos já nascem, quando nascem, sem a menor possibilidade de sequer sonhar, por estarem com seus cérebros irremediavelmente comprometidos. Esse mundo tem uma população estimada em 2,2 bilhões de habitantes. Pessoas que vieram ao mundo parecendo destinadas a sofrerem humilhação e injustiça. Não tendo sequer o que comer uma vez ao dia. É um mundo onde o riso é desconhecido, onde a dor é permanente, onde a esperança pareceu jamais florescer. Vidas em permanente desencanto a testar até onde o homem permanecerá insensível à tamanha discrepância, aos apelos mudos de uma população que está condenada a abraçar tal indigência humana que, entre outras mazelas, mata pela inanição.

Existe um mundo onde as pessoas já não lutam, onde se vêem entregues à sua própria sorte e se quedam ante à morte que as aguarda. Mundo onde prevalece a arrogância de uns tantos que têm o poder nas mãos, poderosos insensíveis e passíveis espectadores da dor do próximo.

Bem perto de nós existe um mundo onde só ouvimos o silêncio do clamor dos infelizes. São seres humanos que vivem a gemer pelas noites frias das estradas. Sem agasalhos, sem alimento, sem receber afeto e desconhecendo por completo o carinho de alguém. Seguem teimando em sobreviver às suas existências mortas. Vidas que recebem ao nascer a indiferença, que padecem na solidão e morrem em total abandono.

Existe um mundo onde os avanços da tecnologia, as descobertas da ciência, os mais nobres sentimentos do ser humano, como o amor, a solidariedade e a fraternidade, são totalmente desconhecidos de todos porquanto envoltos estão pela intolerância e a insensibilidade de homens rudes e cruéis, que os mantêm na mais vil escravidão.

Não é possível que a indiferença e a insanidade mental de alguns venham a prevalecer sobre os sonhos que acalentam os homens de bem. O sonho que vive no peito do homem bom, que tem o poder de pôr um fim na escuridão das madrugadas, que conduz homens e mulheres a dias melhores e mais dignos, fará com que o clarão de um novo dia arrebente as amarras da escravidão de todo um povo, de todas as nações. Nações que vivem submersas no obscurantismo, que nega a vida e conduz os homens a sofrimentos e os nivela a seres inferiores. Impossível pensar que o homem que vive se aprimorando em fazer valer o melhor para a espécie humana seja o mesmo que cala e fecha os olhos para a necessidade de um contingente de eternos candidatos a cidadão, que ainda não foram devidamente contemplados com os elementares direitos outorgados pelo Estatuto dos Direitos Humanos. Penso que está a chegar o tempo em que será preciso reunir forças e cantar todos juntos a mais bela das canções: a Sinfonia de um Novo Tempo que Chegou...

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