No limiar da solidão?

Luiz Maia

O poeta Manoel Bandeira costumava enaltecer o Recife em seus livros e, não raras vezes, falou da beleza dos nomes de suas ruas. E ele, com toda propriedade, citava algumas ruas que permanecem até hoje com seus nomes preservados, não dando vez a uma troca pelo nome de algum figurão emergente ou de um político em fim de carreira, cujo maior mérito teria sido exercer vários mandatos à luz da plena mediocridade. É fácil lembrar da Rua da Saudade, Rua da Aurora, Rua do Sol, Rua das Ninfas, Rua da Alegria, Rua do Príncipe, Rua das Flores, Rua da Amizade, Rua da União, entre outras. E foi justamente na Rua da Saudade, no Bairro da Boa Vista, onde morou por muitos anos uma jovem senhora de nome Angélica.

Tão angelical quanto o seu nome era sua pessoa. Filha mais velha de um coronel do exército e de uma médica geriatra, Angélica vivia feliz ao lado de mais três irmãs, todas bem mais novas que ela. Por ser a mais velha, esforçava-se o mais que podia para mostrar-se um exemplo. Sua conduta no Colégio Damas Cristãs era irrepreensível, sendo sempre a primeira aluna da classe, o que a deixava feliz e os seus pais muito orgulhosos. Além disso, estudava inglês e cursava aulas de piano, onde sempre primou pela perfeição, chegando a ser considerada uma virtuose. Embora fosse portadora de ótimos atributos e gozasse de muito prestígio entre os amigos e no seio da sociedade, sem falar que era uma moça atraente, bonita e que chamava a atenção dos homens, parecia que algo estava errado. Os seus pais começavam a demonstrar uma certa impaciência pelo simples fato de Angélica contar com 23 anos e nunca ter conseguido namorar alguém.

Num determinado dia, Angélica percebeu o desencanto de seus pais e não esboçou nenhuma reação. Simplesmente fechou-se em copas e aquela sua natural alegria deu lugar a um silêncio contemplativo, mudando radicalmente a personalidade antes extrovertida. Agora fazia do silêncio uma tônica em sua vida. Aquela descabida cobrança pesara e muito sobre seus ombros.

Uma semana antes de Angélica completar trinta e cinco anos, sua irmã caçula subiria ao altar. Quando todos estavam prontos para ir à igreja, Angélica foi tomada por uma crise de choro compulsivo. E, diante de seus pais, conseguiu reunir forças para, num gesto de desespero, vir pedir-lhes perdão por nunca ter consumado o desejo deles. .

A partir dali os dias daquela família não seriam mais iguais. O desencanto dos pais dera lugar a uma tristeza tamanha e o sentimento de culpa se abateu sobre eles. Por seu turno, Angélica se dera por inteiro ao serviço voluntário de um renomado hospital beneficente do Recife. Sua atuação à frente daquela entidade era reconhecida. O sentido de solidariedade humana foi incorporado por ela, como ninguém, em muitos anos de existência daquele estabelecimento de saúde.

Esses desencontros que a vida nos causa, em algum momento de nossa existência, servem-nos muito bem para adotarmos uma nova postura diante da vida, diante do mundo. O amor de Angélica foi desta vez totalmente direcionado para uma causa nobre. Todo o seu tempo era destinado a ajudar os mais necessitados. Ela se comprazia com isso e se sentia mais que gratificada. O seu nome conseguiu ultrapassar rapidamente os limites da entidade e, mais que merecidamente, passou a incorporar espaços nos jornais e nas crônicas recifenses. Era o reconhecimento explícito àquela que resolvera doar-se à causa dos mais necessitados. Também o reconhecimento de que o amor numa pessoa pode se caracterizar ou ser demonstrado de várias formas, em diferentes nuanças. A solidariedade é a forma mais bela de alguém dizer e sentir amor. Pode até ser que um homem bem intencionado, dotado de excelente caráter, tenha sido preterido no seu desejo de ser um dia marido de Angélica. Pode ter acontecido, é uma hipótese. Mas o que ninguém pode negar é o fato de que muitos, mas muitos mesmo, tiveram a sorte e o privilégio de terem um dia sido amados e acobertados pelo amor extremado de uma jovem senhora, de nome Angélica, que um belo dia largou seu lar de classe média para se dedicar, de corpo e alma, aos carentes da sua cidade. O gesto de Angélica é um indicador de que nada neste mundo está perdido. E seria muito bom que mais Angélicas viessem povoar esse mundo como forma de se fazerem emissárias de Deus entre nós!

ooo

Crônicas Página Principal