O meu pai

Luiz Maia

Luiz Aurélio, meu filho, penso que o meu pulmão não está mais aceitando essa nebulização. Preciso ir para o hospital. Chame o Jorge, não há mais nada a fazer aqui.

Essas foram as últimas palavras que ouvi do meu querido pai. Quão terrível é a sensação de saber que o fim de um ciclo está se esvaindo e não poder fazer nada para alongá-lo. A certeza do quanto somos limitados, pequenos e vulneráveis nos acerca nesses momentos de pleno limite. A fronteira entre a vida e a morte nos é ainda muito nebulosa. Não conseguimos aceitar o momento do desenlace como sendo parte da própria vida. Nunca fomos preparados para isso, parecendo até que vivemos uma vida inteira sofismando o que de mais real e certo poderá nos acontecer após o nosso nascimento, que é a morte.

Nascido em Vila do Conde, Portugal, meu pai foi aos quatorze anos impelido a vir morar no Brasil. Esse imigrante português pisou em solo brasileiro, mais precisamente no Recife, em 1934, vindo a falecer em 1994. Portanto, foram 60 anos de Brasil, o suficiente para ele mesmo dizer que se achava um brasileiro, de fato e de direito.

Quantas e quantas vezes ouvi dele relatos sobre sua terra natal, nas mais diversas viagens nas asas das lembranças de sua infância querida. E eram tantos os detalhes por ele trazidos, que nos sentíamos conhecedores dos encantos daquela terra além-mar. Costumava nos dizer que o frio que lá fazia, nos dias de inverno rigoroso, o impedia até mesmo de tomar banhos diários. O frio era tanto que chegava a congelar a água nas torneiras. Por outro lado, esse mesmo frio era responsável pela diversidade de frutas e de excelentes vinhos, consumidos em grande quantidade nesta época do ano. E tinha na lareira um local onde podia amenizar tamanho frio. À beira da lareira a conversa entre familiares fluía solta, levando-os a comer e a bebericar um bom vinho como parte de agradáveis e inesquecíveis momentos, tão bem lembrados por ele em meio à saudade.

Amante das artes, deliciava-se horas a fio a ouvir músicas de Caruso e de Pavarotti, sendo Caruso inigualável para ele. A Ópera sempre esteve presente em sua vida. Era conhecedor de inúmeras delas. Chegava a ficar triste ao constatar que nenhuma companhia de Ópera chegava ao Recife, limitando-se a raríssimas apresentações no eixo Rio — São Paulo. Muitas vezes éramos surpreendidos com aquele seu vozeirão, transpondo os limites do banheiro a nos inebriar. Quantas vezes se gabou do seu pulmão, por possibilitar-lhe levar a sua voz aonde quisesse. Pulmão que por ironia da vida o levaria mais cedo à morte.

Há pessoas que trabalharam uma vida inteira sem que houvesse a menor empatia pelo que faziam. Quantos artistas que foram abortados, sucumbidos diante da premente necessidade da sobrevivência. E aí, não restando-lhe opção, a pessoa vê-se obrigada a aceitar trabalhar com algo que não tem nada a ver com a sua natureza. Não deixa de ser uma violação à sua vocação. Foi o que ocorreu com o meu pai. Durante toda sua vida foi um pequeno comerciante, sem que jamais tivesse a chance de dar vazão à arte que corria em suas veias. Quem o conheceu de perto pode atestar essas minhas palavras. Emocionava-se com facilidade e essa sua característica ficava estampada em sua face diante de uma simples música que ouvia ou mesmo deliciando-se com suas orquídeas, uma de suas inúmeras paixões. Esse tenor frustrado fez do comércio o meio de sustentar uma enorme família. Junto com minha mãe, éramos sete irmãos a necessitar dos seus cuidados. Além de ser um pai zeloso e extremamente amoroso, Joaquim Maia foi um exemplo de homem bom, honesto e humano. Era conhecido como um autêntico sonhador. E, como todos os sonhadores, nada ou quase nada pôde concretizar daqueles sonhos acalentados. Hoje, todos fazem parte de nossas lembranças que vamos desfiando como a tecer emoções, o riso e o choro de alguém que se foi mas que deixou para nós um legado de honestidade e respeito para com o próximo.

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