Por um mundo melhor

Luiz Maia

Pensei que um dia eu pudesse mudar o mundo. E em mudando o mundo, também mudaria o Brasil. Essa mudança dar-se-ia pela implementação de velhos sonhos. Sonhos de nossos ancestrais que ficaram perdidos nas estradas da vida, num tempo que se foi, mas que de repente renasceu em mim com a força e a pujança daquilo que nos parece novo. Sonhos, para quem não sabe, são novos e jamais perdem o sabor e a cor. Sonhos são geralmente novos porquanto difíceis de serem realizados, ficando sempre à mercê de um dia se concretizarem.

Pensei que um dia eu pudesse mudar o mundo. Estava eu no auge da adolescência onde tudo é sonho e ilusão. Mas o fato é que eu quis um dia mudar o mundo. O frescor da mocidade nos remete a sonhos inteiramente impossíveis. Mas, enquanto jovens, não percebemos que nossos melhores sonhos não passam de utopias e que nos servem, apenas, de referencial de luta. Essas lutas perdidas, por sua vez, só fortalecem em nós a consciência de que estávamos certos e que o mundo continua velho, precisando de urgentes reformas.

E se um dia eu quis mudar o mundo, foi por não saber que o mais prático, lógico e conveniente, seria eu mudar a mim mesmo. Eu não sabia de nada do que sei agora. Lamento saber que tantos idealistas viram seus sonhos irem por água abaixo. Muitos morreram por um ideal e, nem mesmo assim, arrefeceram o ânimo de muitos que abriram caminhos para que nova leva de sonhadores fincassem bem alto seus sonhos de mudanças para um mundo melhor.

De geração em geração, a cantilena é a mesma. Todos clamam por mudanças e reformas urgentes nos mais diferentes segmentos da sociedade. A estrutura do mundo atual é incompatível com a felicidade pela qual o homem anseia, por ser injusta e incoerente com as necessidades básicas de todo cidadão. Cansei de ver jovens iguais a mim postulando sua inserção no mercado de trabalho, buscando no emprego o reconhecimento por tantos anos de estudos, de luta para um dia se realizarem profissionalmente e assim poderem constituir família e proverem o seu sustento. Nada mais natural, comum e lógico ter ambições na vida, querer fazer valer a sua cidadania. Por outro lado, cansei e canso de ver velhos entregues à própria sorte, desiludidos com um mundo onde só conheceram a ingratidão e o abandono a que foram submetidos. Quando mais precisam do apoio e do carinho das pessoas, eis que tais merecimentos lhes são sordidamente negados. Tanto o velho quanto o jovem parecem padecer com a eterna insensibilidade das pessoas, todas susceptíveis a jamais serem chamadas de cristãs. O mundo de meus sonhos jamais poderá negar-lhes o direito à vida, à cidadania e ao sonho de poder um dia serem felizes.

E pensar que um dia eu quis mudar o mundo sem o menor sucesso, dá-me a incontida vontade de rever a mim mesmo. Penso que no peito do sonhador nada mais cabem a não ser restos de sonhos desfeitos. São tecidas as fantasias para o próximo carnaval onde tudo é permitido, onde todos os sonhos, por três dias, são facilmente admissíveis e possíveis de serem realizados. Está portanto, no carnaval, o momento propício para o desaguar de tantos sonhos impossíveis. Talvez aí venhamos entender melhor o porquê desta folia galvanizar tantas pessoas diferentes ao seu redor. São o rico e o pobre, o branco e o negro, o patrão e o empregado, todos juntos irmanados num único objetivo de desfraldar a bandeira da alegria, em nome da pseudo igualdade que só o período de momo lhes reserva. Por outro lado, parece-me por demais contundente assistir de camarote ao triste fim de tantos sonhos desfeitos, de tanta energia canalizada em vão. Ou ver, simplesmente, velhos sonhos transformados em rotas fantasias, a ignorar um ideal, uma luta, uma vida, em meio a pierrôs, arlequins e columbinas. Não poderia ser mais triste para mim poder constatar que a nossa vida é um carnaval, onde máscaras, confetes e serpentinas se misturam a um eterno desfilar de sonhos e ilusões.

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