Saudade

Luiz Maia

Naquele dia o crepúsculo da tarde mal findara e o sentimento de saudade dela começara a dar sinais. Como dói a ausência do ser amado; quando olhamos em volta e sabemos que por um bom tempo não será possível aspirar seu cheiro, ouvir sua voz, desejar-lhe um "bom-dia" ou mesmo fazer-lhe um carinho e ganhar um suave beijo. Não adianta tentar atenuar com lembranças porque só torna mais viva a imagem de quem já não se encontra perto de nós. O cancioneiro popular está certo quando diz que "saudade é dor pungente". Claro que a saudade dói e quem assim não sente é porque não é saudade.

Certa feita eu estava no Rio de Janeiro, ao lado da ‘namorada’, num momento de intimidade. De repente me vi cheio de recordações e a figura da minha mãe me era proeminente. A saudade dela tomara conta do quarto e me vi pequeno diante daquela situação. Talvez eu devesse mesmo requisitar os serviços de um psiquiatra, me preparar para enfrentar um divã e fazer longas análises. Mas não deixou de ser um momento de intensa saudade.

Da partida festiva e emocionante à saudade doída e cruel é um passo. A cada despedida, nossas almas são acometidas por bombardeios desse sentimento. Não existe nenhum remédio e, muito menos, nenhuma profilaxia capaz de evitar os ‘dissabores’ da saudade. Ela chega como se estivesse de comum acordo com cada um de nós. Na verdade, ela nem pede licença e se instala como se fosse dona do nosso eu, parecendo ter total domínio sobre nossas ações e emoções.

Há saudades que chegam a paralisar e bloquear nosso raciocínio. Simplesmente ficamos absorvidos por esse sentimento, não nos restando outra alternativa senão a de mergulharmos em nós mesmos, na ânsia de fazer o tempo passar depressa e logo rever o ser amado. A saudade é radical. Ou sentimos com toda intensidade do nosso ser ou não é saudade. A saudade também costuma castigar o coração de quem a sente. Quanto mais perto do momento do reencontro, aí é que bate mais forte o coração. A saudade tem o poder de mexer com nosso metabolismo. Muita gente ao rever a pessoa amada passa pelo dissabor de contrair uma tremenda dor de barriga. É a emoção contida que dá sinais de plena exaustão. O corpo relaxa e o vexame acontece.

Pelos caminhos por onde andei, tive muitos encontros e desencontros. Muitas chegadas e partidas. Porém, em todas elas ficou registrada a dor da despedida. E, da despedida à instalação da saudade era só uma questão de segundos. Agora mesmo estou mergulhado numa saudade profunda. Saudade da pessoa que tanto amo que chega e se apossa de mim, sem a menor consideração para comigo. A saudade parece dizer que, quando amamos realmente alguém, logo adquire uma intimidade maior conosco. Ela simplesmente chega e se instala sem cerimônias no mais sensível de nossos cômodos: o coração.

Certa feita tive de me ausentar de casa por três longos anos. Fui me tratar numa clínica de reabilitação física no Rio de Janeiro. Ao descer do avião, minha mente partia em devaneios. Estava uma vez mais provando do gosto amargo desta fruta chamada saudade. Saudade da família que ficara para trás. E logo estava eu fazendo amigos. Isso amortecia e muito aquela saudade, sem no entanto retirá-la por completo de mim. Nem gostaria que assim fosse. De retorno ao Recife me vi diante de mais uma dolorosa despedida. Amigos queridos, que certamente nunca mais veria, estavam a me abraçar à porta do avião. A fronteira entre o ir e vir costuma presenciar cenas de pura beleza: o adeus em meio às lágrimas demonstra, mais que saudade, a fragilidade de nosso arcabouço corporal.

"Saudade bichinha danada que me fez morada e não quer me deixar". Pensando bem, esse apego que a saudade tem de mim não é outra coisa senão o amor e o carinho que devoto à minha amada. Não é tamanha saudade algo negativo em hipótese nenhuma. É na verdade uma forma de zelo, cuidado e, acima de tudo, a prova cabal da imensa falta que ela me faz. Sua ausência é sentida e logo reclamada pelo meu corpo, já tão cativo de seus carinhos e de seus silêncios. Silêncios mais que eloqüentes. O corpo exige sua presença. A mente registra... E meus olhos choram... São sinais evidentes do quão importante ela é para mim. Quando juntos estamos, o circunstancial e o essencial se misturam. Só quando separados estamos, o circunstancial desaparece e só fica registrado o essencial, que é a lembrança dela em forma de saudade.

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