Somente um adeus...

Luiz Maia

Eu sempre vivi momentos de puro encantamento pela vida, algo estimulante que não sei explicar como me acontece, embora perceptível aos olhos dos outros. Encantamento é o sentimento que prevalece quando eu vejo o mundo, ou quando percebo os detalhes do cotidiano, algo que nos leva a correr em direção ao outro, a sugerir a sua compreensão pelas oportunidades que se apresentam e que não devem ser nunca ignoradas. É momento de contemplar a vida com olhos de quem enxerga o amor redesenhando o seu destino. São caminhos que devem ser trilhados a dois, por amantes que trazem consigo a forte chama do desejo. Quem será a mulher que eu irei amar tão apaixonadamente assim? Como será ela? Onde a encontrarei?


Numa manhã de verão recifense, chovia forte no Aeroporto dos Guararapes. Eu fui levar uma amiga ao Aeroporto e ao voltar resolvi prestar atenção à minha volta... De repente, a poucos metros de mim, vi uma moça bonita, de olhar disperso e pele bronzeada pelo sol, chegando de viagem. Ao mesmo tempo em que parecia nervosa, segurando a valise ao peito, sua face deixava transparecer uma certa alegria. Foi aí que eu percebi, através do vidro que nos separava, quando ela se dirigiu à lanchonete, pediu um café e sorriu demoradamente para mim. Fiquei surpreso e logo quis saber o seu nome. Aquele encontro bem que poderia renovar o meu ânimo, preencher um certo vazio que rondava os meus dias, levando a minha solidão para longe, entregando-me aos braços dela.


Conheci Vanessa no saguão deste Aeroporto. Soube alguns detalhes de sua vida e falei também de mim. Percebi o quanto era romântica, e não me cansava de ouvi-la. Disse-me que, assim desmotivada, ela seguia solitária em suas noites de insônia, sentindo muito a falta de um aconchego, dos toques de um companheiro, querendo ouvir palavras que lhe falassem de amor. O muito que ela desejava sentir uma boca a lhe beijar, mãos que percorressem o seu corpo, nas noites mornas de desejos sem fim. Alguém que a fizesse esquecer daqueles dias de solidão, um amor que pudesse trocar o silêncio que lhe habitara pelo realizar de todos os seus desejos.


No exato instante em que as cores do céu mesclavam-se, anunciando mais um pôr-do-sol, logo a cidade era tomada por aquele tom lilás. Eu ficava feliz pela certeza de poder usufruir mais uma noite que chegava e assim poder esperar a mulher amada. Eu me imaginei de repente sentado ao seu lado, a observar o fim do dia e o iniciar de mais uma noite, com os olhos mais contemplativos que alguém poderia possuir. Aquela moça de expressões delicadas, de olhar e gestos graciosos, sentou-se ao meu lado falando palavras de amor. A sua terna voz dera um fim àquele imenso silêncio que nos envolvia. Suas palavras eram tudo aquilo que eu precisava ouvir.

Estava de fato Vanessa ali, à minha frente, sob a noite azulada, com os seus lábios entreabertos, a me abraçar como se fôssemos velhos apaixonados. E assim o amor acontecia, no escuro da penumbra que acolhia os nossos corpos, receptivos às carícias que saciavam nossos desejos. À noite, quando já não existe a luz solar, os nossos corpos relaxam e permitem a invasão de fortes emoções. O crepúsculo é um convite aos prazeres da vida, só possíveis através de mais uma noite que chega. Certas noites têm mais cores, é quando ficamos mais inspirados ao sabor da brisa morna que desnuda as nossas almas. Mas o que eu jamais poderia imaginar, era que no dia seguinte ela retornaria à sua cidade natal, deixando partido o meu coração. Eu queria saber dizer até um dia, quem sabe, talvez...

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