Sutil violência

Luiz Maia

Foi na minha adolescência que passei a conhecer as revistas destinadas ao público masculino. Nas bancas de jornais, elas vinham embaladas em plásticos e sua venda era proibida a menores de dezoito anos. Não existia a variedade que vemos hoje, nem havia exemplares nacionais. A Playboy era a mais famosa e detinha o monopólio. Lembro-me que muitas vezes meu pai ficava a me olhar de lado por estar folheando uma delas. E notem que sempre lia às escondidas, pois jamais tive a intenção de afrontá-lo, embora soubesse ser ele um bom leitor dessas revistas.

Pois bem, nesta última década de noventa, tais revistas passaram a ser fonte de desejo e de enriquecimento de muitas mulheres. Posar na Playboy, na Sexy ou em qualquer outra do ramo, além de trazer muito dinheiro para quem se habilita a mostrar suas "intimidades", traz também fama e prestígio. A TV mostra-se uma perfeita parceira nesse mundo da luxúria, fazendo abertamente, de forma até mesmo acintosa, apologia a esse tipo de revistas e, sempre que possível, aplaudindo quem se prestou a tais "serviços". Tudo isso fortalece o desejo de muitas moças inexperientes e incautas de se entregarem de corpo e alma a esse que qualifico de rendoso porém espúrio negócio.

Nunca houve na história desse país afrouxamento moral tão grande e deliberado quanto o que estamos vendo. Os meios de comunicação estão longe de se prestarem a servir a população com uma programação decente, baseada em critérios que atendam a um mínimo de dignidade. Não se trata de querer ser moralista, palmatória do mundo ou coisa que o valha, apenas traduzir o sentimento de indignação de muitos cidadãos que se sentem vítimas de tamanha insensatez.

Nunca a mulher foi tão aviltada e violentada. Nunca se viu tanta moça buscando subir na vida através do sonho de se tornar uma modelo. Quantas moças não fazem das Carlas Perez, das Feiticeiras e das Tiazinhas modelo e parâmetro para suas vidas? Inúmeras! Quantas em plena puberdade já não sonham em colocar próteses de silicone em seus seios, que mal estão a despontar? Afinal, o culto ao corpo é outro fator preponderante para que se aumente a auto-estima e se esteja apta a desfilar o corpo nu diante da platéia ávida em ver corpos torneados, malhados e, via de regra, siliconizados. Devemos atribuir essas coisas apenas ao mau gosto e à inversão de valores?

Tamanho despautério deve-se em muito à falta de Deus na vida das pessoas. Em grau menor, vemos a falta de respeito ao pais e às pessoas mais velhas, que mal servem para dar conselhos desagradáveis e cafonas. São os mais velhos apenas peças de museu em meio a tanta gente que perdeu a vergonha. Pessoas inescrupulosas fazem a festa e pedem bis. E dói saber que tantas garotas estão quebrando a cara todo dia quando não conseguem atingir seus objetivos. A gravidez precoce cresceu assustadoramente. Passou a ser comum ver meninas na pré-adolescência com barrigas à mostra em plena gestação, quando deveriam estar era brincando com bonecas. Os valores absorvidos pelas jovens as têm levado a se prostituírem na mais tenra idade. Ao mundo de glamour que aprenderam a curtir nas telinhas de tevê jamais terão acesso. As revistas, que exaltam a beleza e a escultura de muitas "mulheres maravilhas", servem apenas como pretexto para continuarem pensando que "o sonho não acabou".

De tudo isso é fácil extrairmos a lição de que o nosso destino não pode continuar nas mãos de pessoas insensíveis às regras básicas de bons costumes e de desenvolvimento de um povo, para que esse mesmo povo venha a ter uma infância digna, pautada em valores consistentes e edificantes que os tornem adultos felizes e responsáveis. Nunca é demais refletir sobre qual país queremos para os nossos filhos, questionando os valores vigentes.

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