Tempo

Luiz Maia

Já é comum dizer-se que não há tempo para nada. Que se o dia tivesse trinta horas, ainda assim, seria insuficiente. Compreendemos que a correria da vida moderna nos coloca contra o tempo. Além disso, o próprio corre-corre em busca da sobrevivência faz com que o dia se torne pequeno. Esses e outros aspectos devem e são considerados. Mas não podemos deixar de dizer que muita gente emprega seu tempo em coisas fúteis, desprezíveis e desnecessárias. Claro que muitos dirão que aquilo que para mim não tem o menor valor nem sentido, para eles é o máximo. Não se trata de radicalismo nem de criticar valores, apenas avaliar melhor certos aspectos do uso do tempo.

Quem não conhece alguém que passa horas e horas sentado numa mesa de bar, na desculpa de estar desopilando o fígado? Inclusive, há quem extrapola e chega a passar até dez horas num barzinho a conversar amenidades, ou sobre assuntos que logo são esquecidos. Sabe-se, por outro lado, que há mulheres que entregam suas horas a um salão de beleza, cuidando de seus cabelos, unhas, cútis, etc.; chegando a se esquecer do seu precioso tempo. Quantas pessoas não desperdiçam horas diante de uma televisão, absorvidas por programações medíocres ou, em última análise, de péssimo gosto? Quem pode negar que vivemos o tempo das academias de ginástica, onde homens e mulheres passam cerca de três horas a malhar, malhar e malhar para obterem um corpo escultural?

Diante disso, concluímos que existe tempo sim, agora o que fala mais alto são as prioridades e as conveniências de cada um. Ninguém quer cercear o direito de se fazer o que bem entende. Cada um deve utilizar seu tempo à sua maneira e ter o lazer que bem entende. Porém vale a pena refletir e perceber que se pode empregar melhor o tempo. Vivemos num país onde não se incetiva a leitura. Ler passou a ser um hábito de poucos privilegiados. Infelizmente está quase que arraigado no sangue a idéia de que ler é chato e enjoativo. E, o que é bem pior, não existe para a maioria das pessoas o prazer de ler! O que esperar, então, de pessoas que pensam assim e vão passando para as novas gerações a impressão de que ler é uma chatice? Ou "pura perda de tempo"?

A educação é fundamental para o desenvolvimento e a grandeza de uma nação. E ficamos tristes ao verificar que vivemos num país onde a educação esteve sempre relegada a planos inferiores. As nossas crianças estão indo à escola muito mais para desfrutar da merenda escolar do que mesmo incentivadas por outra atividade. Não estará faltando mais seriedade às autoridades desse país para verificar o imenso abismo que estão cavando para essas futuras gerações? Ou será apenas uma simples questão de "falta de tempo"? Na verdade, há muito tempo que esse país carece de mais imaginação.

Em face de tanta gente reclamar da falta de tempo em suas vidas, entendemos que tempo realmente existe. Agora que esse tempo é mal aproveitado em virtude das conveniências de muitos não serem lá grandes coisas, é algo a considerar. Nunca é tarde para que todos possam recuperar o tempo perdido. Dizem que tempo é ouro, mas muitos não fazem valer essa máxima e fazem do tempo que dispõem algo desprezível. Prestem atenção no tempo de um comercial de televisão, principalmente no horário nobre, geralmente de trinta segundos, e vejam a fortuna que custa. Eu gostaria muito de saber se esses patrocinadores destinariam um por cento dessa verba para a feitura do primeiro livro de um jovem sonhador. Será que essa gente que só aposta na pronta contrapartida iria pensar de fato na questão cultural de um povo? É difícil de responder, mas fica a pergunta no ar.

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