Tempo de esperança

Luiz Maia

O momento é propício para se recriar o que de bom passou e hoje é só nostalgia. Já não existe o tempo que se foi. O tempo que nos cabe é o instante presente. Ele é o bastante e tudo aquilo de que nós precisamos. Há que existir a centelha da esperança que a tudo pode e a tudo muda, como se fora a concretização de nossos melhores sonhos. Não dá para se viver apenas de lembranças como se o amanhã estivesse para sempre condenado a não nos presentear com algo decente, digno daquilo que nos foi dado tempos atrás. Alguns momentos maravilhosos, pelos quais muitos de nós passamos, não passavam de meras esperanças. Não fora a obstinação de muitos e nada aconteceria.

Não queira ninguém limitar à sua maneira nossa vocação de eternos recriadores de ilusões. De implorar a Deus a inspiração divina para que tudo aconteça nos mesmos moldes dos áureos tempos da fartura, onde a felicidade e os prazeres da vida pareciam impor àqueles dias se tornarem eternos. Não precisamos enfraquecer o que existiu para nos contentar com o pouco do todo possível que poderá nos chegar. Bem melhor será fortalecer a esperança no porvir e fazer por onde as coisas venham a acontecer.

Vislumbrar algo ameno adiante é o mínimo que nos cabe. Não devemos nos iludir nem nos deixar impressionar com as efêmeras nuvens negras que estão por sobre nossas cabeças. Elas também têm o seu tempo de vida. Com o cair da chuva tudo voltará ao normal e logo será dia claro novamente. E os nossos momentos de pouca esperança têm na sabedoria da chuva sua explicação: às vezes é necessário que passemos por certas experiências desagradáveis para mais adiante darmos o merecido valor às coisas boas que nos acontecem. Assim é quando avistamos o firmamento negro, obscurecido por carregadas nuvens que se farão logo chuva. E, assim, somente assim, poderá umedecer o chão e prepará-lo para ser solo fértil.

Não deixemos que as traves da vida limitem ainda mais a já tênue esperança nos corações dos mais fracos e descrentes. Não podemos assistir de braços cruzados esse fio de esperança que há em cada homem fenecer. Livremos cada ser humano de sua solidão emblemática que tanto o esmaga porque não há esperança em seu despertar. É chegado o momento de encarar a vida de frente e fazê-la ter valido a pena. Não será preciso derramar todo o pranto agora, pois haverá momentos na vida de cada um, com o pleno resgate da esperança, em que o choro terá vez e será perene.

A vida é feita de etapas e o começo é hoje. Tratemos do dia que virá com o mais puro e simples dos desvelos, para que assim possa vir a se tornar, no futuro, belas recordações nos instantes de plena nostalgia.

Não há mais nada a esperar, nesta rua triste onde as casinhas de vila darão lugar no breve amanhã a espigões residenciais. A vida não espera para que possamos nos sentir felizes. A felicidade é um processo de busca contínua, de realizações diárias nos mais diversos campos de atividades. Feliz é aquele que não se envergonha do longo caminho que tem de percorrer para encontrar, enfim, a esperança de há muito acalentada e que só agora chega materializada em forma de realizações. Se a felicidade existe, e ela existe, só poderá ser encontrada, também, à medida em que você deposita todas as suas esperanças nessa salutar e prazerosa busca. Não existe a felicidade quando não buscada através da esperança. Portanto, a felicidade — esse ideal que todos nós buscamos — é fruto de quem tem esperança e nela aposta até sua própria vida.

Ter esperança é ter fé na vida. É algo próprio de quem tem Deus no coração.. Uma vida sem esperança é insípida e inócua. É tempo de deixarmos de lado o pesado fardo da exaustão do desencanto para trocarmos pelas benesses que nos propicia a esperança. Não há como sobreviver às agruras da vida se não estivermos, permanentemente, imbuídos da esperança no porvir. E o porvir não é outra coisa senão dias repletos de bênçãos, pertinentes àqueles que têm esperança na vida.

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