Tempo dos quintais

Luiz Maia

Os shopping centers não são apenas o portal do consumismo hoje em dia, como também local de diversão e lazer da criançada. Dia desses, deparei-me com crianças brincando numa área de um Shopping. Crianças cujos pais saem para trabalhar deixando-as por lá por um bom tempo. Confesso que não gostei de ver crianças a brincar num chão frio de um estacionamento qualquer. Aquilo chegou a me arrepiar e não pude evitar de lembrar do tempo da minha infância, onde os quintais eram amplos e arborizados. Quantas vezes me vi comendo frutas em cima da própria fruteira. E eram tantas as mangueiras, caramboleiras, jambeiros e cajueiros que ficávamos horas a fio "perdidos" naquele paraíso. Esse paraíso não mais existe nos dias atuais, fruto da especulação imobiliária. Os quintais de saudosa memória deram lugar às edificações modernas, tipo "caixão", gentilmente chamadas de apartamento.

É de se imaginar que não só os quintais desapareceram, levando com eles árvores frondosas e frutíferas, como também o espaço físico foi transformado em pedra e cal. Certa vez soube que em São Paulo já existia uma geração inteira de adolescentes que nunca viram uma galinha viva ou mesmo pisaram o chão sem estarem calçados com seus tênis. A relação desses adolescentes com a natureza é precária e artificial. Chegamos facilmente ao entendimento de que quanto mais progresso existe, mais a natureza fica comprometida e, por conseguinte, piora a qualidade de vida de seus habitantes. À medida em que as cidades crescem na sua verticalidade, a nostalgia de muitos aumenta na sua horizontalidade, na exata medida e proporção.

Que maravilhoso era o tempo dos quintais da nossa infância querida. Com a chegada do São João, erguíamos uma fogueira lá fundo do quintal. Ali, nossa cozinheira assava o milho para que comêssemos bem quentinho. O importante não chegava a ser o milho, em especial, mas o ritual, a magia e a brincadeira que giravam em torno daquela fogueira. Tudo cheirava a pureza. Tudo era encantador. As vitrolas estavam sempre presentes e atuantes nesses momentos a tocar as músicas do saudoso e inesquecível Luiz Gonzaga. Quão maravilhosas, puras e telúricas eram as músicas do nosso Rei do Baião. Suas músicas tinham o cheiro e o sentimento do povo. Músicas simples, porém impregnadas do mais puro lirismo. Falavam de fogueiras, balões, canjica, pamonha, pé-de-moleque, arrasta-pé, milho verde e das tradicionais quadrilhas juninas. Não dá para esquecer o paraíso que nos era oferecido pelos tempos dos quintais. Num mesmo momento, lamento uma época de ouro que se foi e todos esses jovens que jamais poderão imaginar o que se passava naqueles tempos onde as casas usufruíam de generosos quintais, onde nossas mentes estavam sempre ocupadas com o descobrir de uma nova e instigante brincadeira. As amarelinhas, o jogo de bola, o garrafão, as brincadeiras de pegas, o peão, o papagaio ou pipa, a bola de gude, o jogo de botão, o tênis de mesa entre outros faziam nossos dias serem curtos demais para nosso gosto.

Sem querer, mas obrigado a isso, traço um pequeno paralelo entre um tempo que se foi, onde restam apenas e tão-somente a nostalgia e a saudade, e os dias atuais com seus modernismos e discutíveis encantos. Não tenho dúvidas em afirmar que as novas gerações estão pagando um alto preço por não disporem de uma vida mais natural, mais saudável, menos estressante e aflitiva, em que pese todo aparato oferecido pela era da cibernética e de todos os avanços na área da tecnologia. É comum se observar uma família de quatro pessoas, pai, mãe e filhos, todos ocupando espaços distintos numa mesma casa. O pai à frente da tevê assistindo a mais um jornal. A mãe na cozinha lavando pratos do jantar oferecido há pouco. Os filhos distribuídos da seguinte forma: um agarrado ao vídeo game, enquanto o outro fica a navegar na Internet, no mais profundo e assustador dos silêncios. Essa é a cara ou radiografia da família moderna. Tudo tem que funcionar de forma prática - cada um na sua, nada de importunar um ao outro -, mesmo que para isso todos tenham que viver uma espécie de solidão compactuada. O espaço reduzido é racionalmente distribuído entre pessoas e aparelhos domésticos. Esses tempos me assustam de tal modo que vejo na alegria dos jovens um quê de tristeza, algo que lhes falta e que nem ao menos sabem explicar o que é. Ao meu sobrinho certa vez perguntei: "você trocaria seu apartamento por uma casa com quintal?" Ele riu e saiu sem entender minha indagação, mais que uma amorosa preocupação com ele.

ooo

Crônicas Página Principal