Travessa da Baixa Verde, 109

Luiz Maia

Hoje amanheci de braços dados à nostalgia. Lembrei-me dos bons tempos da minha adolescência, em que freqüentar a casa da minha tia Celina fazia parte de meus sonhos e extenuantes desejos. A residência dos tios Lídio e Celina, no bairro do Derby, era o referencial maior de alegria e contentamento dos parentes e amigos do casal anfitrião. Ali a vida pulsava a cada segundo. Não me lembro de lugar algum que pudesse ser comparado àquela casa. O clima de carinho, amor e fraternidade entre primos, tios e irmãos que ali reinava não só nos fazia bem quanto a todos que ao longe apreciavam aqueles momentos mágicos e incomparáveis do verdadeiro bem-viver.

Lá pelo início dos anos sessenta, a casa da minha tia Celina, como ficou conhecida, estava sempre repleta de parentes e alguns amigos mais próximos. Bastava um aniversário ou mesmo um simples batizado para que tomássemos de assalto a "casa dos nossos sonhos", puros sonhos juvenis.

Como esquecer da nossa avó Amélia, cabelos cor de prata e ainda bastante lúcida, sempre sentadinha a nos falar de Deus e do seu grande amor, o Clube Náutico Capibaribe? Era gostoso ouvi-la, usufruir de seu grande entusiasmo e da convicção pelas coisas em que acreditava e que amava. Ah! que saudade daquelas tardes de domingo, onde o meu pai e a minha mãe se compraziam em conversar com os meus tios, primos e tias, espalhados pelas dependências da casa. Aquele cantinho foi durante anos o mais concorrido e alegre do Derby. Razão até de uma crônica de um amigo nosso, um jornalista português já falecido.

Via os meus pais, ainda jovens, juntar-se aos tios Jaime, Artur, Manoel, Fernando, Aurélio, Celeste, Mariazinha, Celina, Lídio, Adalberto e Assunção a discorrerem sobre diversos assuntos, sobretudo os mais amenos. A vida era mais tranqüila e a correria dos dias de hoje passava ao largo daquele tempo. A placidez daquela época concorria para o eterno bom humor das pessoas. Doenças e mortes pareciam não existir, já que não tomávamos conhecimento. Hoje, com o peso da idade sobre as costas, posso entender a razão de tamanha alegria e deslumbramento indisfarçáveis: éramos todos jovens. E a juventude é momento mágico, instante maior de nossas existências.

Presenciávamos, naquelas tardes de festa, o carinho com que a nossa tia Celina tratava os seus sobrinhos. Por uma dessas ironias da vida, nunca pôde realizar o seu desejo de ser mãe. Justo ela que sempre adorou crianças. E compensou essa falta distribuindo o seu amor. Não media esforços para realizar o desejo de cada um. Sempre amável e distribuindo um sorriso de cumplicidade, lá estava ela à nossa disposição, fazendo-nos mais felizes e senhores conscientes da necessidade de sermos eternamente gratos para com ela. São coisas que não podemos nem devemos jamais esquecer.

Já falei um dia que essa tia querida foi aquela que sempre esteve a nos adoçar a boca, a massagear o nosso ego. Seja através de uma palavra amiga, de um carinho ou de um sorriso no exato momento em que nada mais é possível fazer. Naquelas horas limites, naqueles momentos mais difíceis que chegam para todos, pode-nos faltar tudo menos a sua mão amiga e o seu sorriso largo. Suas atitudes e ações sempre obedeceram às mais variadas formas de amor, carinho, solidariedade e companheirismo. Foi sempre assim que a vimos.

Infelizmente, hoje tudo mudou. A sua casa, que antes irradiava vida, hoje não passa de um espectro de inúmeras lembranças. Ainda bem que felizes e agradáveis lembranças. Mas se tudo se resume a recordações, gostaria de saber como estaria sua qualidade de vida? Como estaria se sentindo tão só? Quantas perguntas que ficariam sem respostas, diante de sua conhecida maneira de acostumar-se às implacáveis injustiças que a vida tem lhe reservado. Que ironia, não? Não era isso que queríamos que fosse. Dói-me vê-la abraçada a uma solidão que não merecia. Até eu costumo me esconder por trás de uma deficiência, forjando, quem sabe, uma impossibilidade que venha atenuar a minha falta em não mais visitá-la.

Resta-me agora agarrar-me às lembranças. Agarrar-me à saudade de vovó, das suas orações, da alegria de um tio Lídio, do dedilhar sereno ao piano do tio Adalberto, da alegria de tia Celina a nos servir bolo, guaraná, pastéis, tudo com gosto do enorme carinho que sempre soube nos presentear. Sinto-me grato por ter sido merecedor do seu carinho. Sou agradecido por recolher alguns valores, que hoje norteiam minha vida, e que me foram dados por essa tia tão especial e estimada.

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