Vez e hora da mulher brasileira

Luiz Maia

A mulher brasileira conseguiu sobreviver a cerca de quatrocentos e cinqüenta anos de sociedade patriarcal. Desde o Brasil Colônia, passando pelo Império e finalmente na República, que a mulher vem sendo tida e havida como um ser menor. O chamado sexo frágil sempre esteve ausente, por longo tempo, das grandes decisões que englobam o destino da nação, assim como do mercado de trabalho e de coisas correlatas, sobrando-lhe apenas os afazeres do lar. Viu-se obrigada muitas vezes a ouvir e a obedecer, tendo ainda de amargar o dissabor de ver sua opinião quase sempre sendo ignorada. Como forma de amenizar tamanha discriminação, o bondoso patriarca presenteou-lhe com o honroso título de "A Rainha do Lar". O fato é que a mulher sempre caminhou com o homem pari passu, embora sempre colocada num plano secundário nessa sombria relação. Seu espaço físico ficou sempre restrito às quatro paredes da casa e o seu dia era inteiramente dedicado a cuidar das crianças e do pesado serviço doméstico. Foi durante todo esse período preparada para o lar e, para isso, era fundamental receber em sua residência ensinamentos sobre prendas domésticas. Por todos esses anos suas ações e atitudes não ultrapassaram os limites do muro de sua morada.

À mulher quase tudo lhe era negado: não tinha direito ao voto até meados do século vinte, trabalhar fora era um sonho nem mesmo cogitado por ela. Sempre se viu impedida de freqüentar sozinha qualquer ambiente público, até mesmo ir a um cinema ou à casa de um vizinho, só em companhia de familiares. E, como se tudo isso não bastasse, foi durante muito tempo castrada na sua sexualidade, vendo-se às vezes proibida de sentir prazer na relação sexual e, muito menos, de poder questionar ou emitir qualquer desencanto seu relacionado à questão.

Mas no final do século dezenove e primórdios do século vinte, algumas mulheres partiram para a luta na tentativa de reverter o quadro, buscando com isso a tão almejada igualdade com os homens. Desde então, essas mulheres, as chamadas feministas, foram ganhando espaço e as primeiras conquistas começavam a surgir. Esses pequenos avanços foram se somando a outros, frutos de conquistas memoráveis, e descortinavam para nós o novo e belo perfil da mulher brasileira, emergente de uma difícil luta contra a cultura predominante e os conceitos defasados e insensíveis do homem brasileiro, que viveu anos moldado e impregnado do machismo que tanto mal causou às mulheres e, certamente, a todos eles também. Esse infeliz traço cultural do machismo, que de há muito assolou entre nós e ainda tem seus resquícios, infelicitou a muitas mulheres e a muitos homens, embora às vezes sem haver a perfeita e clara consciência para o caso.

Mas estamos aí diante de uma nova mulher. Já não basta sonhar: a mulher começa para valer sua participação efetiva em todos os segmentos da sociedade. Aos poucos vai galgando cargos relevantes e expressivos de comando, participa tomando decisões importantes no âmbito da Justiça, da política e já é maioria nas redações de jornais e da imprensa como um todo. Aos poucos marca presença no campo das artes, das letras, do esporte e demais setores da vida. Levantamento feito recentemente nos mostra que a mulher é maioria nas universidades de todo país. E assim a nova mulher segue abrindo mais e mais espaço, causando uma notória perplexidade naquele homem despreparado para a nova realidade.

Essa metamorfose tem feito com que muitos homens sintam-se acuados, medrosos, atônitos e meio perdidos. A relação homem versus mulher ganha um novo colorido e certa preocupação com o despreparo de muitos homens e de algumas mulheres, talvez pelo inesperado do novo. Aquele que sempre esteve à frente de tudo, dando as ordens e comandando as ações, de repente se vê diante de uma mulher madura, atuante, andando com suas próprias pernas, dinâmica e, acima de tudo, independente e liberal. Aí este homem não consegue estabelecer novos critérios para uma fácil assimilação dessa nova mulher e entra em parafuso. Por outro lado, assistimos ao açodamento de algumas mulheres, cujo calor da mutação fez com que assumissem a mesma postura machista de muitos homens que tanto criticaram e que lutaram para derrubá-la, mas que agora incorrem no erro de querer tomá-la para si. Há que se dar o devido desconto, mas sempre lembrando que a mulher precisa preservar suas diferenças, tanto quanto os homens, pois ambos são divergentes em essência e mais que nunca precisam se entender entre si para que possam viver felizes, respeitando-se mutuamente.

Nesses próximos cinqüenta anos a mulher terá a oportunidade de solidificar todas as conquistas e avanços realizados até o momento. Neste período todos verão a relação homem versus mulher assumir contornos até então nunca vistos, onde a sensibilidade aflorada desta mulher irá fazer por onde o respeito mútuo, o amor, o carinho e a fraternidade ganhem a real dimensão no dia-a-dia de cada um, onde todos esses valores possam enfim permear o nosso feliz cotidiano, tudo por causa dessa nova mulher.

ooo

Crônicas Página Principal