Vidas que contemplam

Luiz Maia

Ao cair da tarde, em pleno pôr-do-sol do Recife, aquela jovem é contagiada por esse fenômeno da natureza. Deixa-se entregar pelas brumas daquele momento. Está absorvida com o clarão à sua frente, e ri. Abraça-se com o invisível, como se fosse a dona do mundo, ou a algo que quisesse muito bem. Instante poético e gerador de incontáveis sonhos no coração daquela jovem. É fascinante o show apresentado pela natureza, no exato momento em que o dia se despede. Fascinação ainda maior causa a beleza física e interior daquela mulher, impregnada de magia e de esperança num tempo que passou. A mutação do dia parece causar-lhe expectativas de um feliz amanhecer. Não me canso de vê-la assim, como a agradecer a Deus tamanho presente. Alguma coisa me diz que, além da natural contemplação à vida, está presente nesse seu ritual um explícito, mas silencioso, agradecimento a algo muito bom acontecido em sua vida. Deixa transparecer uma eloqüente emoção em sua face, no exato momento de entrega perene, silenciosa e mansa ao Astro Rei. Ela vive esse instante de delírio como se fora o último em sua vida. Tento me concentrar em agradecimentos por poder ter o privilégio de estar presenciando algo de sublime e emocionante, coisa rara nos dias exaustivos e artificiais de fim-de-era.

Pensando bem, aquele que tem o hábito da contemplação pode aproveitar bem melhor as coisas maravilhosas que a vida nos oferece. Quem contempla consegue extrair a essência de inúmeras coisas. Talvez venha a encontrar respostas para perguntas que vivem intrínsecas em cada um de nós. Ao contemplar a natureza, a vida, a criança, o alimento, é quase certo que venhamos a encontrar razões outras para amar muito mais essa vida que quem é indiferente ou menos sensível a esse ato de sabedoria. Não deixa de ser sabedoria destinar parte do tempo para mergulhar no desconhecido mundo do universo. E cada coisa em especial que venhamos a apreciar, com denodo e exaustão, é parte infinita de um todo que compõe o universo.

Os dias daquela moça eram assim. E foi contemplando, também, que um belo dia a conheci. Contemplei seu nome na tela do meu computador. E, de lá para cá, minha vida mudou completamente. Chama-se Ana Emilia. Tem nome de princesa. Soube posteriormente que era seu costume mergulhar no coração dos amigos. Fazia dessa prática uma rotina em sua vida. Era uma forma de contemplação, também. Não raras vezes, via-se diante de amigos generosos, mas poucos conseguiam chegar perto da sua grandeza d’alma. Sempre teve o hábito de enaltecer os valores do ser humano, dos amigos. Costumava levar a vida a superdimensionar os valores de inúmeros amigos, posteriormente os meus, que despretensiosamente cruzaram sua vida. Não sei se sorte ou destino, mas o fato é que sou um desses amigos que ela tanto elogia e quer bem. Mais que isso: da amizade ao namoro foi um passo. Hoje somos dois grandes apaixonados. E não deve ser fácil para ninguém receber palavras de carinho e de estímulo de alguém que mal conhecemos, quando isso se dá continuamente. Isso se deveu à grande empatia que logo nos cercou. A amizade virtual pode mascarar certos aspectos fundamentais na relação entre pessoas humanas que somos. Por outro lado, a distância e o silêncio cúmplice do dedilhar dos teclados de um computador favorecem a autenticidade das mensagens e das emoções contidas nelas. Há uma espécie de cumplicidade codificada entre as pessoas que se relacionam virtualmente, que chega a parecer, ou mesmo ser, uma forma de contemplar o interior de cada pessoa em foco. Foi sempre assim que nos tratamos e assim nos conhecemos. Nossa contemplação virtual teve e tem um quê divinal. Esse encontro virtual, entre Ana e eu, tem algo bem mais consistente que uma simples coincidência. Não tenho dúvidas em afirmar que foi providência Divina. Tantas afinidades e um imenso bem-querer um pelo outro não acontecem por acaso. É certo que muitos se decepcionaram e outros tantos vieram a se frustrar pelos labirintos da comunicação virtual. Mas não há como negar os efeitos benéficos e alvissareiros que muitas pessoas passaram a usufruir, a sentir e a creditar em suas vidas, após meses de interação e, principalmente, de contemplações virtuais que terminaram por se fundirem e se espraiaram em amizades sólidas. Assim aconteceu comigo. Ana Emilia entrou na minha vida e dela, peço a Deus, jamais sairá. Tudo fruto da contemplação. E a contemplação virtual não perde o valor por não poder ser visual. Ela acontece independentemente de vermos ou não um ao outro. O importante é que tudo se dê ou aconteça com plena consciência da efetivação permanente da contemplação. Isso basta. Contemplar é preciso. Ana e eu que o digamos.

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