Vôo 231. Rio-Recife

Luiz Maia

Eram 17h50min de uma segunda-feira de novembro de 1978. O avião da Varig iniciava o taxiamento na pista do Galeão. Eu estava nesse vôo, louco para chegar em casa. Afinal de contas, quase três anos distante dos meus familiares falavam por si só. O Rio de Janeiro começara a ficar para trás, e tudo de agora em diante começava a ter sabor e cheiro de despedida. Enquanto lá estive, vivi como se tivesse nascido ali, numa rua qualquer do Leblon. Suas praias, as garotas moderninhas, sua beleza natural, tudo já adquirira em minha mente o sabor amargo daquela fruta chamada saudade. Ao meu lado sentara uma jovem, possivelmente com seus dezoitos anos. Parecia tensa e me perguntou para onde eu ia. Recife, respondi. Seus olhos brilharam e me disse: "Que bom! Estou indo para lá de férias". Era o tipo da pessoa falante, mas que trazia por trás daquele olhar uma espécie de medo do porvir. Algo a assustava muito. "Devia ser medo de avião", pensei. Mal o avião decola, vem a aeromoça e logo me serve, numa bandeja, alguma coisa parecida com comida. Era comida sim, muito bem acondicionada, por sinal. Só que aquilo parecia mesmo coisa de plástico, algo sofisticado sem o menor sabor e de qualidade protéica discutível. Comida de astronauta devia ser assim. Logo lembrei com saudade do bife acebolado que a minha mãe fazia. E o filé ao molho madeira, uma característica dos irmãos Dias? Quem já provou sabe a delícia que é. E eu ali, com a boca cheia d’água, diante de um monte de comida plastificada. Enquanto eu me divertia com aquelas bugigangas, a moça ao lado dera início à leitura de um livro estranho: "Dez Lições Para Ser Feliz". "Então é isso", pensei. - medo de não ser feliz!

Tão nova e já envolvida com questões de ordem circunstanciais. Sua idade ainda não permitia pensar e agir assim. Veja bem, mal iniciou na vida e já começa a pisar em cascas de banana que são as fórmulas para se dar bem na vida. Estes picaretas escrevem um só livro, ficam ricos, são bajulados para o resto de suas vidas, e mesmo assim jamais conseguirão fazer ninguém feliz! E o pior é que há pessoas que dão crédito e que fazem esses picaretas se acharem realmente o máximo. É justamente nas livrarias dos aeroportos que surge com mais freqüência este tipo de literatura. Talvez pelo fato de muita gente estar indo em busca de lazer, de uma vida nova, de aventuras, tudo isso deve criar uma aura de falsas expectativas que favorecem isso tipo de leitura. Felicidade, para mim, sempre pareceu-me algo distante, inatingível. Coisa mesmo de poeta, que vive a sublimar a crueza da vida, oferecendo-nos pontos de apoio. Afinal, o homem precisa sonhar, ter esperança e buscar incessantemente a tal felicidade. Acontece que muitas vezes chegamos bem próximo dela e nem desconfiamos. Porque a felicidade reside nas coisas mais simples da vida, e a simplicidade geralmente não é muito considerada.

De repente o avião começa a trepidar ao passar por dentro nuvens. Logo o comissário de bordo pede para que amarremos o cinto. A aeromoça trata de acalmar uma senhora grávida, cujo marido está ao seu lado a dormir meio bêbado. A mocinha do meu lado segura minha mão e pede que rezemos juntos. Falei que, se dependesse de mim, a coisa estava ruim. Nunca aprendera a rezar e aquilo deixava aquela jovem frustrada. Da janela dava para perceber os raios iluminando os céus. A cada relâmpago, a mocinha segurava minha mão com mais força. Pedi que tivesse calma, que logo estaríamos no Recife bastante felizes. Ser feliz para mim, naquela situação, seria ver se aproximar o momento de deixar aquela aeronave. Pisar em terra firme seria a maior das alegrias para quem estava naquela angústia. A moça ao lado começara a chorar. Eu tratei de abraçá-la dizendo que tudo estava clareando, que o perigo acabara e que logo estaríamos em terra, são e salvos. Do choro ao riso foi um pulo. Pensou rápido e pediu meu telefone. Queria telefonar para mim e dizer à sua tia o quanto que fui importante para ela nesse sufoco. Confesso que não entendi o porquê que fui tão importante assim. Minha barriga começara a dar os primeiros sinais de cólicas, então resolvi ir ao sanitário. Comecei a suar quando vi que não podia ir sozinho. Sou paraplégico e não ando. Como chegar ao toalete sem ajuda? Que coisa horrível é você sentir uma necessidade e depender de terceiros para se locomover. A moça ao lado ria para mim e comecei a olhar nas calças. O suor escorria por sobre todo o rosto. As cólicas continuavam e eu morria de medo e vergonha. Será que já aconteceu? Felicidade mesmo, de verdade, pareceu-me ser o poder de ir ao sanitário quando se bem quer e entende. Foi preciso acontecer isso comigo para entender o que é ser realmente feliz! E saber que tem gente que paga caro por palestras e livros, que abordam o tema felicidade, mas que nem de longe discorrem sobre a real felicidade, que tão bem conheço... Daí entender-se quão inócuas e inúteis são tais palestras e livros.

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