A carta do ódio

 

"Um operário trabalhou durante cinco anos para uma empresa e foi mandado embora, num momento de grande dificuldade do empregador. Revoltado e julgando-se injustiçado, descarregou toda sua ira numa carta, dirigida a seu ex-patrão, e a despachou pelo correio.

A carta, bastante insultuosa, continha pesadas acusações, referindo-se a atos supostamente desonestos, praticados pelo ex-empregador. Fora escrita num momento de aflição e contrariedade, resultantes do impacto causado pela inesperada demissão.

Seis meses após o episódio, estando ainda desempregado, recebe um convite para retomar seu antigo emprego, tendo em vista a superação das dificuldades anteriores e o surgimento de novos negócios, que faziam prever um novo e longo período de bonança.

O operário ficou alegre e atordoado. Por um lado, se emocionou diante do convite que recebeu e das palavras elogiosas ali expressas, acerca de sua dedicação e de seu desempenho. Por outro lado, não compreendeu a razão de ser chamado de volta, já que havia sido muito agressivo na carta que escrevera.

Refletiu bastante acerca do convite e ficou indeciso quanto ao retorno à empresa ou não. Preocupava-o, acima de tudo, descobrir a razão do convite. Não seria uma retaliação? A carta que escrevera era extremamente ofensiva e até havia aguardado uma resposta, no mesmo tom, que jamais viera.

Como a necessidade de conseguir um emprego era grande, decidiu atender o convite e voltou à empresa. Foi recebido alegremente por seu ex-patrão e readmitido no mesmo instante.

Satisfeito, reviu ex-colegas que também retornaram ao trabalhoe todos elogiavam o dono da firma, pela capacidade de superar dificuldades e por seu gesto de solidariedade e reconhecimento, trazendo-os de volta para o trabalho.

Os dias foram se passando e o operário, plenamente reintegrado às suas funções, sendo tratado com simpatia pelo seu empregador, passou a desenvolver um sentimento de remorso e angústia muito fortes. Arrependia-se de haver escrito a carta e não compreendia a causa do silêncio do dono da firma. Até esperou,nos primeiros momentos, algum comentário a respeito. Desejava mesmo ser reclamado, ofendido, para poder pedir desculpas. Mas nada!

Aquela coisa foi tomando conta de sua cabeça e várias conjecturas ele criou. Teria a carta sido extraviada pelo correio? Teria seu ex-patrão perdoado as ofensas? Estaria aguardando momento oportuno para jogar na cara dele toda aquela agressão? Deveria provocar o assunto e confessar o arrependimento? Foi se martirizando com aquelas idéias. Não conseguia esquecer a maldita carta. O ódio com que a escrevera não poderia ter sido tão facilmente absorvido.

Dois meses após seu retorno à firma, e dominado pela curiosidade, ei-lo na sala do patrão, num momento em que ninguém ali se encontrava. Ele sabia que para cada funcionário existia uma pasta, onde eram arquivados documentos relativos a cada um. Localizou a que continha seu nome. Abriu-a e estava lá a malsinada carta, devidamente arquivada e lacrada. No instante em que retirou a carta, o patrão entrou na sala e pegou o flagrante.

- Algum problema? - pergunta.

- Vim procurar a carta. Queria ter certeza de que ela havia sido recebida.

- Que carta? Deixe-me ver isso aí.

Após a leitura, o empregador, visivelmente contrariado, chamou a secretária e perguntou:

- Essa carta - disse a interpelada - chegou naquela semana em que o senhor estava muito contrariado devido aos problemas da firma e disse que não queria saber de nenhuma cobrança ou reclamação. Recomendou o arquivo de tudo que aqui chegasse. Foi o que fiz.

No dia seguinte, o operário foi demitido.

* * *

* As coisas ruins devem ser esquecidas. Remoer o passado infeliz é reativar a força negativa, que nenhum benefício traz.

* Inapelavelmente, aqui ou além, a maior vítima do ódio é sempre o seu próprio cirador.

* O veneno do ódio, quando materializado, produz conseqüências desastrosas, até ser substituído pela força pacificadora do amor e do perdão.

* Pensamento é ato criativo. Aquilo que você pensa, você cria. O magnetismo que rege o mundo das vibrações mentais atrai para você aquilo que você concebeu.

* Bem mais que virtuosa e nobre, a atitude mental de perdão, tolerância e compreensão é ato de sabedoria e de amor-próprio.

* O mal que fazemos aos outros não tem hora certa para retornar, mas tem destino certo ao voltar: vai, com absoluta precisão, detonar em cima daquele que foi seu causador.

* O que você colhe na vida, quer seja visto como sorte ou azar, traz embutido o reflexo positivo ou negativo de suas criações mentais.

* "Por que reparas no argueiro que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu?" (Mateus 7-3)."

(Melcíades José de Brito, do livro Histórias que ninguém contou, conselhos que ninguém deu)

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