Amor de mãe



Festejamos oficialmente o Dia das Mães, mas, como diz uma mãe minha amiga, qual é o dia que não é dia da mãe? Desde o dia em que concebe o filho, até o dia em que ela própria morre, sua condição de mãe funciona, ininterrupta. Pode chegar aos mais perigosos extremos, "mas é pelo meu filho". Mãe de herói, ela participa do palanque que o festeja; mãe de acusado, ou mesmo de criminoso, ela aceitaria até ser presa em lugar dele, para o ver a salvo.

Isso tudo são lugares-comuns, todo mundo sabe que mãe é assim mesmo - como diz o ditado: "Mãe é mãe!"

E essa devoção da mãe à cria não é um condicionamento social: é essencialmente biológico. É a natureza que fabrica o coração de mãe, tal como é, disposto a tudo para proteger o filho, até a morrer por ele, se for o caso. Lembro uma moça, minha conhecida, que, passando por uma gravidez de alto risco, recusou rispidamente a retirada do feto de dois meses, dizendo só isso: "Se for o caso, ele fica e eu vou. É a ordem natural das coisas." Valeu o heroísmo, pois que a moça sobreviveu, a criança também. Parece que Deus gosta de heróis - e heroínas.

É figura clássica na história dos flagelos sociais a mãe que passa fome para alimentar os filhos. Seria até motivo de escândalo, se ela se alimentasse antes da cria; ninguém iria entender, nem acreditar em tal despautério.
Infinito é o folclore, em qualquer cultura, sobre o que se espera da mãe e o que se recebe de sua parte. No mundo dito ocidental, criou-se pois o Dia das Mães, que se celebra com missa, ajantarado e mais ocorrências festivas. E a mãe, prima-dona dessa ópera, como é que se comporta na ocasião?

Procurei observá-las, no seu dia, e vejo que, nos fins de contas, são elas próprias que, na maioria, enfrentam o ônus da celebração. É na própria casa dela que os filhos vêm comemorar o seu dia. As noras arranjam qualquer presentinho pífio e chegam, com a filharada, se existe, ou com sua própria tribo familiar; a mãe dela que não tem tempo nem dinheiro para festanças e vem, com os seus direitos de sogra, tomar parte no comando da operação. Juntam-se filhos e noras que também são mães, e a coitada da mãe de todos que agüente o duro peso do seu dia!

Na verdade, o amor de mãe não é uma imposição social, mas, como já foi dito, é um condicionamento biológico. Todo bicho quando mãe vira uma fera. Outro dia, aqui no meu escritório, fui vítima, bastante dorida, de um acesso de amor maternal.

Um grande marimbondo sobrevoava a minha mesa de escrever. Entrava pela janela, passava sobre minha cabeça, uma vez, duas, dez vezes. Eu sempre tive medo de marimbondos, principalmente depois de uma ferroada, na fazenda, que me deixou de bochecha inchada por vários dias. Assim, tratei de enxotar a intrusa, ou o intruso, batendo o ar, no seu caminho, com um jornal dobrado. Mas o marimbondo não se assustava, dava uma voltinha e vinha de novo, passando por cima de mim. Certa vez, em que tentei assustá-lo com mais força, ele veio contra mim furioso, e tive de fugir vergonhosamente da picada. Vi que o inseto (é inseto, não é?) combatia por uma causa que lhe parecia impositiva, e me pus a procurar essa causa. Acabei descobrindo, na prateleira mais elevada da estante, no alto do meu mais precioso dicionário, um ninho de vespa, construído com barro, montado no alto do segundo volume, de onde não o consegui desalojar senão com relativo prejuízo da margem superior de umas dez páginas. Quase chorei ante a avaria do meu livro. E chorei mesmo, depois, já que o danado do marimbondo, me vendo destruir o seu ninho, veio direto, me ferrou na face, deixando-me de cara inchada por três dias! Raspei o barro do ninho, lavei como pude os vestígios do ocupante. Mas qual não foi a minha surpresa quando, semanas depois, no mesmo local do ninho anterior, descobri, feito em barro, bem redondinho um novo ninho de vespa!

São proezas essas oriundas do amor materno, mesmo que a mãe, no caso, seja um marimbondo!

Claro que o Dia das Mães é uma festa de caráter universal. E descobri que as mães a levam muito mais a sério do que se imagina.

Por exemplo, vim a saber que certa mãe comprava ela própria os presentes que lhe deveria dar o filho casado, porque "desconfiava da nora", muito capaz de levar o marido para a festa da própria mãe dela, "e eu não quero que meu filho passe por ingrato". É, o jeito é repetir o dito universal: "Mãe é mãe!"

RACHEL DE QUEIROZ


Sábado, 8 de maio de 1999

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